Como se faz um [algo a] Mais

Como se faz um [algo a] Mais

Agitação na redação é progressiva até fechamento | Foto: Luana Ribeiro, edição: Alexandro Mota

 

Uma das seções que o CORREIO ganhou após a reforma editorial, ocorrida em 2008 – o Mais* – dá a pista do que se transformou o jornal tal como o conhecemos hoje: mais próximo do leitor; mais destaque ao visual, ao grafismo, bem como à cobertura local; um jornal que, por dizer algo a mais, se tornou o mais lido do Nordeste.

Na última sexta-feira (21) os Jornalistas de Futuro conheceram como acontece o fechamento das edições do matinal. Para Oscar Valporto, editor executivo do jornal, na redação, essa é a etapa que mais se aproxima do industrial, o que concordo ao ver o processo de longe, a redação cheia, a correria contra o tempo com direito a gritos de “bora aê, cadê, já fechou?” e repórteres concentrados. Mas, chegando junto, não consigo fazer outra analogia se não com a do trabalho artesanal do ourives: lapidar, detalhar e escolher a forma certa, é como defino esse trabalho de edição final. Óbvio que estou falando de um artesão que tem encomendas diárias, e de uma clientela que gosta de novidades.

No CORREIO, asteriscos e aspas costumam identificar os "olhos" | Arte: Alexandro Mota

O repórter Victor Uchôa me mostrou como se edita o Mais*, espaço no jornal destinado a reportagens mais aprofundadas, geralmente com fotos maiores, e que inclui infográficos, “olho” e “box”, recursos que garantem a ampliação da narrativa.

Até por conta da escolha de destacar acontecimentos locais, Victor me explica que geralmente o Mais* é ocupado pela editoria Bahia-Salvador – carinhosamente apelidada de “Basal” e geralmente conhecido pelos jornalistas como editoria de cidade, – no entanto, o espaço pode ser ocupado por matérias de qualquer editoria.

Victor mãos de tesoura

Sabe aquela digitação desgovernada que todo mundo já fez só para preencher um espaço que futuramente será ocupado por uma informação (leia-se: jmhdk#hng%kol)? Assim começa o processo de diagramação da página. O programa Ted Extra, usado para edição, reúne os elementos básicos que dão identidade às páginas e às caixas de texto: tome “agjh$dofnafapkf” para ocupar o espaço. Aos poucos surge o texto inicialmente produzido pelo repórter e importam-se as fotos (cuidadosamente escolhidas pelo editor) e infográficos. Depois disso, ele, o editor, só pensa em cortar, alinhar o modo como as informações estão sendo colocadas às diretrizes editorias do produto – que não se trata de regras escritas, mas aprendidas – e revisar.

Outra velha pratica dos estudantes de jornalismo: “vou dormir e amanhã termino esse texto, só assim olharei com calma e distanciamento”?  Pois é, a edição final do texto é a terceirização dessa prática, já que “amanhã” o leitor tem que ter o conteúdo finalizado.

O trabalho é minucioso, requer atenção. Percebi que Victor buscou dar uniformidade aos períodos e verificar informações que faltavam, ou ainda que permitiriam dúbio sentido. Na inocência, comemorei com ele o fato de ter mais espaço do que texto, por julgar que reduzir seria mais problemático do que acrescentar. Mas, ele advertiu: “aprendi com os mais velhos que jornalismo é a arte do cortar”, até já li essa máxima no livro A ARTE DE FAZER UM JORNAL DIÁRIO, de Ricardo Noblat [cortei].

A matéria era sobre uma operação da Policia Federal que resultou na prisão de quadrilha especializada em assalto a carteiros. Victor me pediu uma sugestão para uma espécie de chamada que vem no topo da página, conhecida na redação como “hiperlink”. Tive a ideia de relacionar a antiga fama dos carteiros terem medo do cão da vizinhança, atualizada com o atual medo dos assaltantes. Aprendi uma lição: é sempre bom que essas intervenções sejam acompanhadas de informações, o que Victor logo se propôs a fazer foi somar à “brincadeira” alguns detalhes da operação.

Por fim, Victor revelou que o consideram bom editor, e por isso tem assumido essa função. Mas o que mais lhe fascina é estar na rua como repórter. Confesso que estou ansioso para também ter a experiência na rua:  cenas dos próximos capítulos.

Mais: sobre a engenhosidade da distribuição

 Antes de sairmos da redação, por volta das 20h, um rapaz passava por todas as editorias, olhando o que as pessoas estavam fazendo. Quando chegou ao “Basal” o editor Juan Torres fez a apresentação: “Ele cuida da distribuição do jornal, passa aqui para ver o conteúdo, a capa e com essas informações sabe para onde tem que mandar mais jornais”. Isso quer dizer que, se em um determinado dia tiver uma capa com foto de Paripe, e uma chamada sobre estudantes, por exemplo, haverá uma logística diferenciada para esse bairro, e para possíveis locais onde transitem estudantes. Achei genial como todos os setores funcionam bem amarrados.