_Mais um azul, diz a repórter Ayeska Azevedo ao seu editor Pedro Levindo.
_Puxou a foto? Pergunta ele.
_Sim, ela responde.
Olhos fixos no monitor, o barulho ininterrupto dos teclados, um turbilhão de frases ecoando por cada canto da redação, inclusive na editoria Política e Economia, onde pude acompanhar o trabalho de perto. O ritmo frenético do final da tarde de sexta-feira nada tinha a ver com o início do fim de semana. O iminente badalar do deadline e o fechamento de três edições do jornal – sábado, domingo e segunda – era quem ditava o ritmo do trabalho, as conversas, o tamanho dos textos, os cortes que precisavam ser feitos.
_ A matéria está com três linhas a mais. Eu corto ou você corta, pergunta a repórter Luciana Rebouças à sua editora Maria José Quadros.
_ Manda. Eu corto, responde Maria.
E Maria lê, revisa, interpela Luciana, que sentada ao seu lado, observa tudo com a expressão cerrada e a testa franzida. Juntas, elas repassam os escritos, trocam palavras, releem, burilam o texto em busca da versão final.
Fiquei imaginando o que passava na cabeça da repórter ao olhar aquela cena tão comum em seu dia-a-dia. O que poderia significar aqueles movimentos faciais? Fui perguntar. Confesso que esperava uma resposta que revelasse inquietações sobre o fato de ver o seu texto está sendo mexido. Mas não. Com a voz serena e um sorriso ela disse: “Para mim é tranquilo. Aqui temos o costume de participar da revisão. Eu só prefiro a palavra consumidor à cliente”. Falava neste momento sobre o título da reportagem que escrevera.
A frase “mais um azul” ecoou novamente do outro lado da mesa e minha atenção foi roubada. Em seguida percebi a inquietação de Ayeska. Enquanto preparava um roteiro dos pontos que não poderia deixar de citar na reportagem, dizia: “Tenho setenta e três linhas a mais”. Fiquei ali parada observando como ela faria para escolher os detalhes mais importantes, escrever o texto de forma clara, com profundidade e dentro do espaço que o fizesse ficar azul. Saí da redação e ela ficou, como fez questão de descrever o processo de nascimento de uma matéria, costurando, costurando, costurando o texto.
Sei que ela conseguiu, pois a matéria pôde ser lida na manhã seguinte, bem cedinho. Como disse o editor executivo Oscar Valporto : “ Jornal bom é o que pode ser lido de manhã”.
Voltei para casa pensando na seguinte frase, a qual eu já tinha ouvido e lido algumas vezes:
Escrever é cortar palavras.
Obs:. Azul é a cor utilizada pelsoftware de texto para indicar o tamanho ideal de uma reportagem. Dentro da redação, a cor significa ainda que o mesmo está liberado para ganhar as ruas e alcançar o maio número possível de leitores.
Marilúcia Leal