Apuração, pauta e outras coisas que você sempre quis saber

Apuração, pauta e outras coisas que você sempre quis saber

No mundo mitológico dos seres comunicacionais, existe uma criatura especial dotada de superpoderes. Suas ondas cerebrais vibram na mesma frequência do inconsciente coletivo dos habitantes locais. Sua mente, sempre alerta, capta as necessidades e anseios do público leitor. A visão, extraordinariamente aguçada, enxerga os detalhes que tornam um acontecimento relevante. Seu fardo é sua paixão. Missão: encontrar a notícia, onde quer que ela esteja. Seu nome: pauteiro.

Ok. Se você entende um pouco de jornalismo, sabe que não é bem assim. Superpoderes só existem no mundo dos gibis. Mas quem passa uma tarde conversando com Linda Bezerra, fica com a impressão de que, para se encontrar uma boa pauta, é preciso mesmo ser de outro planeta. Linda já foi chefe de reportagem, produtora na TV Band e hoje é pauteira. Ela está no Correio há 13 anos, e com a experiência de quem já encontrou assunto para matéria até em número de telefone e classificados, dá a dica: a notícia está nos detalhes. E foi sobre como encontrar este detalhe – “a cereja do bolo da notícia” – que conversamos ontem à tarde.

Existem algumas regras básicas que todo estudante de jornalismo conhece: ouça os dois lados. Tenha cuidado com as fontes oficiais. Proteja a identidade da sua fonte. Mas como isso funciona no mundo real? Linda dá o tom: “Você tem que ouvir todos os lados. São as fontes que dão riqueza ao jornalismo. Elas são as múltiplas faces do fato”. Algo que aprendemos desde o primeiro dia de aula, mas nem sempre fazemos, ou, pelo menos, deixamos claro que fazemos. Se não dá para falar com determinada fonte, deixar isto claro no texto é ser sincero com o leitor. Mas Linda deixa bem claro que isso pode acabar ficando no plano ‘ideal’. A rotina de produção, muitas vezes, atropela esses pequenos acertos.

Para aqueles que têm dúvidas sobre qual é o primeiro passo na hora de começar a apurar, Linda diz que não existe uma forma predefinida, porém, há um caminho que devemos evitar: começar pela fonte oficial. Também é muito importante perguntar aos entrevistados o significado de determinados conceitos. “Vida mansa” para sua fonte, pode não significar o mesmo que significa para você.

E aqui vai uma dica para você, para mim e para os jornalistas de todas as eras, países e planetas: Pense no público. Não dá para escrever algo que só faz sentido para os nossos colegas de profissão, mas que definitivamente, não interessa a quem lê o jornal. O fato é que, muitas vezes, nem conhecemos este tal de público leitor.

Edely Gomes