É necessário esclarecer, desde início, que nenhum de nós (dez estudantes selecionados pelo Programa) começamos a escrever, apurar ou editar nenhum material do CORREIO. Isso porque antes mesmo de fazer, temos de aprender como se faz. Obviamente, o programa contemplará aprendizado através da prática, mas isso virá logo mais.
Nestes dias iniciais, temos aprendido, sobretudo, a escutar. E esse exercício é de fundamental importância para qualquer aspirante a jornalista. Hoje, nossa conversa foi conduzida pelas histórias e vivências de Linda Bezerra, chefe de reportagem do CORREIO, que já trabalhou como produtora de TV e de impresso e conta com mais de vinte anos de carreira. Pauteira convicta, Linda considera ser essa a sua função.
Pauteiro é aquele que está sempre de olhos e ouvidos (ou melhor, com todas os sentidos) em alerta. É preciso falar com o porteiro do prédio, conversar com aquele vizinho que tudo sabe e tudo vê, pegar um ônibus de vez em quando e conhecer novos lugares e ouvir conversas alheias, pois é a partir de tudo isso que surge uma boa pauta. Ser pauteiro é estar antenado 24 horas e, por vezes, sonhar com aquilo que pode interessar não só a você, mas aos outros. Para muitos, isso pode ser um fardo. Para ela, nenhum.
Dentre as muitas coisas que ouvi hoje, uma das que mais me chamou atenção foi a questão do detalhe. Até mesmo porque isso vem rondando a minha vida de foca em alguns momentos. Primeiro, na disciplina Oficina de Comunicação Escrita, com o Prof. Dr. Marcos Palacios. Nela, o professor nos deu algumas informações soltas para que, a partir delas, construíssemos uma notícia. O desafio? Descobrir qual era o gancho. O resultado foi desastroso. Pouquíssimos conseguiram descobrir que o gancho era um prendedor de gravatas roubado do Museu Costa Pinto. No entanto, se naquele dia não descobrimos onde estava o gancho da matéria, dali pra frente nunca mais esquecemos que era necessário buscá-lo.
Outra oportunidade de discutir este tema foi numa palestra de Eliane Brum, durante o Intercom NE 2011. Lá, Brum nos falou da necessidade de ver e escutar, para então acharmos o que de interessante e particular há em cada história de vida.
Hoje, Linda nos falou do detalhe, daquilo que diferencia uma história da outra, do tratamento que é dado a cada notícia. Obviamente, que como seres humanos inseridos em uma cultura e em um contexto de vida similares, não temos muito como fugir de alguns temas que cercam nosso cotidiano. No entanto, Linda aposta nas formas diferenciadas com as quais podemos contar uma mesma coisa. Exemplo disso, ela nos dá, citando a capa e a série de reportagens sobre os 1000 homicídios registrados durante o ano de 2011 em Salvador e região metropolitana (série “1000 Vidas”, de Juan Torres e Victor Uchôa,indicada como finalista da principal premiação do jornalismo – O Prêmio Esso).
Na hora de procurar assuntos, não podemos ter preconceitos. Devemos nos desarmar e buscar os assuntos que interessam às pessoas. Segundo ela “o que é importante, relevante e acima de tudo, interessante”. Foi aí que a colega Marilúcia Leal perguntou até que ponto algo que não é nada relevante, às vezes ganha destaque no jornal por ser apenas interessante. Com um olhar ponderado e experiente, Linda nos disse que o jornal além de informar coisas relevantes, tem de entreter sim. Ninguém pega um jornal para ler matérias sisudas e sérias, mas sim para informar-se e entreter-se.
Ao achar a história que apraz universalmente (como diria em linhas mais definidas o nosso bom e velho amigo Kant) e burilar o detalhe da notícia, podemos fazer um jornal que vende muito para pessoas pertencentes às mais diversas classes sociais e faixas etárias.
A apuração é fundamental, e não se faz só com entrevistas, mas com percepções, escuta, olhares. Por isso, hoje conversamos tanto sobre estratégias de apuração, como apurar através de dados, como lidar com fontes oficiais, com histórias de vida, com a distância geográfica entre onde aconteceu o fato e de onde estamos ao relatá-lo , dentre outras coisas.
Uma das últimas dicas dadas hoje foi: comecem a fazer agendas telefônicas. Talvez tenha sido por isso que Linda começou a conversa pedindo nossos nomes e telefones. E talvez tenha sido por isso que tenhamos encerrado a conversa pedindo o telefone dela e anotando o número nas nossas agendas ainda magras.
Por Marília Moreira