Mais um dia de chuva e ventania em plena primavera soteropolitana e nós, os Jornalistas de Futuro, chegamos à redação do Correio* em comboio – como sempre andamos – para mais um dia de imersão na rotina de produção de um jornal diário.
Recepcionados pelo secretário da redação Paulo Leandro confirmamos uma das lições aprendidas ontem, primeiro dia de vivência: estejam sempre preparados para mudanças.“ Vamos virar o jornal”, disse ele. Virar o jornal? Significa anteceder as editorias convencionais por produções diversas acerca de um mesmo tema, neste caso, a divulgação dos estádios sede da Copa das Confederações, em 2013, e da Copa do Mundo de 2014.
Acomodamos-nos na mesa de reuniões de pauta que fica no meio da redação. Em minha cabeça, desde ontem, após acompanhar as reuniões de planejamento, só uma coisa martelava: como eles fazem para descobrir tantas coisas? Para a minha sorte era exatamente este o tema programado para hoje. E ninguém mais ninguém menos que Linda Bezerra, chefe de reportagem do Correio* com 13 anos de casa, nos conduziria nesta viagem.
Descobrir uma notícia é realmente uma viagem que deve ser vivida com o máximo de atenção, sem preconceitos. “A notícia está no detalhe. A notícia está no detalhe”. Cada vez que Linda repetia esta frase eu respirava fundo e me curvava ainda mais sobre a mesa como se este gesto fosse aquietar meu coração, que a essa altura já me levava a refletir sobre o meu posicionamento diante das notícias escondidas nas coisas do dia-a-dia.
Por incrível que pareça naquele momento lembrei-me das aulas de Estética da Comunicação ministradas pelo professor Monclar Valverde, se não me engano do terceiro semestre. Precisamente as teorias da Forma Formada e da Forma Formante. Segundo as mesmas, a obra de arte já existe e é apenas descoberta pelo olhar do artista ou ela se cria, a partir de uma lógica interna, durante as etapas do processo de produção (Que me perdoe o querido professor se esvaziei demasiadamente os estudos de Pareyson).
Por analogia seria possível afirmar que as notícias já existem – e estão em todo lugar – cabendo ao jornalista o olhar sobre o fato. O que não significa simplicidade no processo, pois as notícias vão se criando a partir das narrativas construídas, das histórias descobertas, dos dados angariados. O que não é possível descartar em nenhuma das possibilidades de produção da notícia é o trabalho do jornalista, aqui traduzido em uma palavra: apuração.
Boa parte da nossa tarde foi gasta com a exposição de técnicas e estratégias de apuração, histórias de repórteres e seus “pulos” na cobertura de pautas. De nossa parte, muitas perguntas, curiosidades, questionamentos sobre publicações do próprio Correio*. Mas foi também aí que começamos a experimentar os conflitos surgidos no encontro das teorias trabalhadas na academia com a prática, em alguns momentos conduzidos pela lógica mercadológica.
É inquietante pensar que a notícia, o jornalismo em si, apreendido na faculdade como algo puro tenha que dialogar, e por vezes, submeter-se ao mercado. É difícil encarar as notícias como produto que precisa ser vendido e, acima de tudo, gerar lucro. Talvez seja esse o nosso principal dilema neste projeto. Produzir e atrair os leitores, acima de tudo, sem deixar de lado os ensinamentos acadêmicos.
Marilúcia Leal