Segundo as Estatísticas do Registro Civil 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os casamentos no Brasil duram em média 14 anos. Mas e a crise dos sete que costuma separar os casais? Apesar de ter ficado famosa no século XX, para entender esta crise é preciso voltar no tempo. Três milhões de anos atrás, para ser mais específica. A fim de procriarem, os humanos da época se juntavam durante um período para formar um núcleo familiar - pai, mãe e filhos. Depois de cuidarem da prole juntos, cada um ia para um lado após cerca de sete anos.
Com essa idade, entendia-se que a criança já estava relativamente independente, assim a mãe poderia voltar para os afazeres rotineiros e o pai sairia em busca de novas fêmeas, tendo em vista que o filho não dependia mais dos dois juntos todo o tempo. “Os casais tendem a ficar juntos por um tempo suficiente para que os filhos sejam criados até um nível mínimo de independência. É justamente nesse período que a dopamina também tende a diminuir e os casais podem se separar. É um momento adaptativo em que a criança está mais independente e os casais partem para outras relações”, explica Spagnuolo.
Além da abordagem evolutiva, outro ponto que pode explicar a crise dos sete anos, de acordo com a sexóloga e coach de inteligência emocional Alcione Bastos, é a inevitável “caída na real“. “Essa crise seria uma média do quanto a pessoa demora para enxergar a realidade e o outro tal como ele é. Nesse período, já caiu a ficha de que aquele indivíduo que foi projetado não é bem assim, foi apenas uma idealização”, explica a especialista.
Thaiane Serravalle, 32, afirma ter sido “vítima” desta crise junto com o seu atual marido, Marcos Carvalho, 36. Após iniciarem um namoro há 13 anos, terminarem após seis meses e voltarem, o casal se separou novamente na fatídica época dos sete anos. “Nesse período, começou muito ciúme, possessividade e desconfiança no relacionamento. Eu estava me sentindo pressionada e parecia que não era mais o momento para estarmos juntos. Após o término, caí na real e disse: ‘é a crise dos sete anos’, relembra a enfermeira. Após um ano separados, os dois reataram o relacionamento, formalizaram a união há dois meses e esperam ansiosos a chegada de Maria Flor - primeira filha do casal, que tem previsão para nascer em meados de março.
Thaiane atribui o fim do relacionamento realmente à crise dos sete anos pois, segundo ela, apesar do ciúme, não houve um motivo grave ou extremamente significativo para o término. De acordo com a enfermeira, família e amigos não entendiam o porquê de eles terem terminado, tendo em vista que eram um casal muito feliz. “Eu acho que foi a crise mesmo, tanto que quando a gente terminou ninguém entendeu. Até hoje, nós também não sabemos porque acabamos mesmo. Se fosse por ele, a gente nem tinha terminado na época”, relata.
No entanto, os especialistas alertam que essa crença pode influenciar desnecessariamente os relacionamentos. “A gente precisa cuidar para que esse rótulo não leve casais a entrarem em crise por conta disso. Esse determinismo precisa ser visto com muito senso crítico e os casais devem saber que conflitos sempre vão existir”, pondera a psicoterapeuta sistêmica de família e casal Joana Junqueira.
Prova disso é Everton Santana, 29, que está vivendo os seus sete anos de relacionamento com o companheiro José Neto, 42, atualmente. Ele esbanja elogios à relação e jura não ter crise. Inclusive, a dos sete anos provavelmente nem dará sinal de vida. “Com a gente, esse marco temporal não se concretizou, mas eu não digo que não exista. Na verdade, acho que há pessoas que vivem aficionadas nisso e ouvem muito as coisas que os outros falam, trazendo para o próprio relacionamento”, destaca Everton.
De acordo com o professor universitário, os sete anos já demonstram a estabilidade e o amadurecimento do casal. Em um post no Facebook, Everton destaca o marco desse período na relação deles. “Eu quis demarcar a data, acima de tudo, para demonstrar a estabilidade que os relacionamentos homoafetivos também podem ter. Os sete já demonstram o amadurecimento, é uma convivência muito longa. Depois desse período, se a tendência realmente for continuar, caminha para algo mais sólido, que inclusive é a nossa pretensão”, conta.
Segundo o IBGE, entre 2016 e 2017, o número de uniões registradas diminuiu 2,3%. A exceção fica por conta justamente dos casamentos homoafetivos que, apesar de representarem pouco mais de 0,5% das uniões registradas, são a parcela que segue crescendo, com aumento de 10% em 2017.
Felizes para sempre?
O amor eterno pode ser a meta de muitas pessoas, mas será que esse sentimento realmente perdura até o fim da vida? Para o psicólogo Ailton Amélio, a eternidade do amor é possível, mas é preciso seguir alguns passos. Segundo ele, a maioria dos casais tem a possibilidade de continuar firme se souber como fazer. “A receita existe e refere-se à maneira de ser. É o jeito de viver com o outro, de olhar a vida, é uma receita de bom convívio, de romantismo, de sexualidade, de dedicação, de amparo. Não é mágico”, explica, ao brincar com a questão de que, se fosse mágica, já estaria bilionário.
O bom convívio e o romantismo realmente é o que mantém o casal San Galo junto. O médico Kleber, 54, e a dona de casa Suzana, 52, permanecem unidos há 30 anos. Por casarem ainda novos e recém-formados, o casal conta que construiu a vida juntos. Segundo eles, sempre pensaram o casamento como uma celebração da felicidade, em parceria, e não como um contrato eterno. “É um pacto para dar certo. É uma coisa de time. O objetivo é junto, é comum, isso que a gente sempre buscou”, afirma Kleber.
Para a psicoterapeuta de família e casal Joana Junqueira, há três fatores principais para que os casais mantenham uma relação duradoura: o sentimento de admiração, a confiança e o desejo. “No que se refere à admiração, é necessário ter orgulho das atitudes da pessoa, dos valores, de como ela se porta na vida. Além disso, confiar no outro é uma base. É a confiança no sentido de saber que a pessoa está por você, do seu lado. É a ideia de cumplicidade que firma essa aliança. O terceiro ponto é o desejo, que aí vem, inclusive, toda a questão de corpo, de atração física, de se desejar o outro fisicamente”, explica.
Além dos moldes da relação, outro fator considerado importante na vida dos casais são os rituais. A comemoração de bodas de casamento é um marco frequente nas relações mais duradouras. Kleber e Suzana adoram “celebrar a vida” com essas festas, como eles mesmos dizem.