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Algemas (Foto: Renata Drews)

Na ida, duas prosas bastaram. Silêncio no carro. Mente borbulhante, agitada. Pensamentos correndo quase uma maratona. Não era nervoso e nem medo. Não haviam temores e nem receios. Eram anseios. Sim, ansiedades, dúvidas e excessos de vontade. É o que acontece quando se é iniciante e quando se está a um passo de provar o desconhecido pela primeira vez.

Eu estava preparada, já havia pesquisado e sabia o que era preciso sobre o futuro entrevistado, mas não tinha noção de como as coisas iriam proceder. Não conhecia o ambiente, apenas o imaginava. Este aspecto é o que passava insegurança. O local? A 2º Delegacia*, no bairro Mandarim*. A proposta? Cobrir a apresentação de um acusado, preso em flagrante.

Chegada

Após a nossa chegada e a de outros jornalistas, a delegada Virgínia* se pôs a responder todas as perguntas. Esclarecimentos, dúvidas e lacunas foram preenchidas. Em sequência, todos ocuparam uma sala à esquerda no final de um corredor estreito. Aquele que era tão esperado, finalmente chegou.

Marcos* foi encaminhado para sua posição, ambientada à frente de um banner azul e branco. Virou-se, encostou a cabeça de encontro a parede e, com a ajuda dos braços, escondeu o rosto. Me peguei a analisar cada movimento e cada aspecto físico e comportamental dele, que nos dava as costas.

Marcos se mostrou inquieto, balançava o corpo e batia os pés no chão, quase num ritmo de ciranda. Suas duas tatuagens expostas logo captaram minha atenção. Uma com o símbolo do Esporte Clube Vitória na panturrilha esquerda, e outra depositada no antebraço esquerdo, com a escrita de um nome que julguei ser o de sua mãe. Estava certa. Perguntando pela mãe, Marcos disse que era a única a quem deveria perdão. “Quero pedir desculpas para a minha mãe, amo ela, peço que ela não me abandone”.

Circo

Foi aí que tudo mudou. Risadas e perguntas irônicas invadiram o clima de tensão e, apesar das cores frias e cinzentas da sala, alguns vislumbraram o cenário de um circo. Talvez sejam daltônicos ou talvez sejam imorais e lhes faltem caráter mesmo.

O tom de zombaria dominou cada metro quadrado, que continha câmeras a postos em pontos estratégicos, apenas esperando o espetáculo começar. Até o preso se contagiou com as brincadeiras, à espera das cortinas subirem para o show começar. “ sossegado, na paz. Tem que rir pra passar o tempo”, respondeu Marcos entre risos, após perguntarem o motivo de sua risada.

Os que não aderiam às brincadeiras se mantinham em silêncio, assim como fiz. Éramos os discrepantes e, por isso, o silêncio foi a nossa única forma de protesto possível. Escorado confortavelmente na cadeira, como se estivesse em casa, um jornalista veterano me surpreendeu ao me colocar como fonte. Ele perguntou sobre uma informação crucial e que era sua obrigação já conter. De encontro ao seu ouvido, sanei a questão.

Ficamos todos ali à mercê do início do programa que entraria ao vivo. Quando a espera, por fim, terminou, minha mente sussurrou, já ofendida com tanto desrespeito: “Preparem-se, o show vai começar!”. E parecia mesmo um espetáculo: o domador imperava no palco com muita convicção. Enfrentava o leão com o chicote (ou melhor, o microfone) na mão e sacudia-o contra ele, impondo que revelasse seus truques para a plateia. A fera, no entanto, parecia bocejar e só retrucava com um “não lhe interessa”.

Mas o domador não deixou que o número fracassasse. Seu poder de fala e o domínio que tinha com o chicote criaram uma cena original, persuadindo a todos. Durante a exibição, uma pequena TV ligada logo ali ao lado, concedia a Marcos a oportunidade de se conferir na tela: “Po, bonito”.

Pausa para a moral da história

Por favor, entenda: todos merecem respeito e todos devem ter os seus direitos garantidos. Seja um profissional sério, não desrespeite e nem leve como brincadeira um momento que é consequência de um crime, de momentos de medo, aflição e angústia. Nunca dê risada do infortúnio alheio. Nunca leve como piada um problema social que, sim, também é culpa minha, culpa sua, culpa nossa.

Ter ética é respeitar a noção de indivíduo e a sua liberdade, é o exercício de perceber como existimos coletivamente. “Liberdade, como saúde, tem de ser um conceito coletivo, a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, a minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Se algum humano não for livre, ninguém é livre”, escreveu o professor e filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella em seu artigo A Ética e a Produção do Conhecimento Hoje.

A ética é essencial em qualquer profissão, mas, antes de tudo, é um princípio vinculado à virtude, que pressupõe possibilidade de escolha e busca caminhar para a universalidade. Cortella provoca:  “Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: quero?; devo?; posso? Nem tudo que eu quero eu posso; nem tudo o que eu posso, eu devo; e nem tudo que eu devo, eu quero”.  Reflita, repense, analise suas atitudes.

Não denigra a imagem de ninguém, seja justo e se coloque no lugar do outro. Escute e respeite o depoimento do acusado, mas claro, pergunte e questione, mas não afirme o que não é certo e nem crie cenas. Ah, e por favor, jamais proclame tais palavras: “tocando o terror em Salvador”. Você quer ser respeitado? Então respeite. Obrigada.

 

*Na história, todos os nomes são fictícios para resguardar a identidade das pessoas.

Renata Drews
Renata Drews
7º semestre na Fsba – Tem 22 anos com tamanho de 12! É uma canceriana que adora gentilezas, sorrisos sinceros e sonha em conhecer o mundo. Apaixonada pelo universo dos livros, pela moda, fotografia e por colagens. Pode ser inquieta e ansiosa mas o que a move é a sede por aprender e descobrir. Também é graduanda em Letras com Francês na Ufba.