Abutres hostilizados

Abutres hostilizados

Perguntei a Perla, editora de Cidade, onde estava Thiago, o repórter que Linda me mandou acompanhar para cobrir o enterro do rapaz que provocou dois acidentes, na Barra e na Graça. “Cooooooreee”, respondeu ela, “cooorree porque ele acabou de sair”. E assim eu e Andrea corremos como se não houvesse amanhã. Encontramos o moço já no carro, deixando as dependências da Rede Bahia.

Gritei como uma louca na feira. “Espeeeeeeere, meu filho, que tem eu e Andrea!”

Antes de irmos ao enterro, fomos apurar outra pauta que Thiago recebeu. Uma troca de tiros na Federação, onde uma mulher foi atingida na nádega enquanto ia comprar pão. Perguntamos aos moradores do início da rua se eles testemunharam algo, mas todos diziam que o caso tinha acontecido mais para baixo e que não sabiam direito as circunstâncias. Entramos nos pequenos comércios e sempre nos diziam que não ouviram nada. Começamos a desconfiar de que as pessoas estavam se protegendo contra represálias de prováveis disputas de tráfico. Voltamos para o enterro do jovem.

luto

Já tive a infelicidade de ir a muitos enterros, mas nunca a trabalho. Fiquei quieta, observando os rostos tristes e tentando identificar quem eram as pessoas a partir disso. Homens e mulheres com fardamentos de concessionárias. Colegas de trabalho. Uma velhinha chorava mudo quando desmaiou. Era a avó. Uma mulher dizia coisas lindas sobre o sorriso e os planos de vida do seu filho. Desmaiava seguidas vezes. Era a mãe, socorrida provavelmente pela filha e outros familiares. Tentei ficar próximo para ouvir o que diziam sem precisar abordá-las. Era difícil estar com um bloco de notas e uma caneta.

Me perguntava a todo momento se eu deveria mesmo estar ali. Até que uma moça, a provável irmã do rapaz morto, muito nervosa, começou a empurrar o repórter Thiago e dizer “Eu quero que você se retire daqui agora! Saia daqui”. Ele foi levado até a área externa do velório por ela e mais outras duas jovens que tentavam controlá-la. Escondi o bloquinho na bolsa e fingi não estar com ele para continuar a ouvir pessoas. Passados alguns minutos, o caixão foi fechado e umas 200 pessoas saíram em caminhada para dar o último adeus ao jovem.

A mãe veio atrás amparada por umas seis pessoas. A última a sair. Acompanhávamos de longe quando um homem avançou sobre Thiago e “”””pediu”””” novamente que fossemos embora. Thiago disse que estava ali a trabalho. O cara fez menção de que tinha uma arma. Ameaçou sem vergonha. A provável irmã voltou e — com todo o seu direito, dor e arrogância — disse que não sabíamos com quem estávamos falando, não sabíamos de quem ela era parente. Fez uma linha imaginária no chão e disse que, se passássemos dela, teríamos sérios problemas.

Pedir que não ficássemos ali tudo bem, mas ameaça é inaceitável. De qualquer forma, ninguém queria provocar mais dor àquele pessoal e nos mantivemos afastados, como estávamos antes de sermos hostilizados. Ficamos mais um pouquinho, creio que só por autoafirmação, para não dar ousadia àquela afronta, e seguimos para a Ladeira dos Contentes, ali mesmo, na frente do cemitério, para conseguir mais informações sobre a troca de tiros. Encontramos a irmã da mulher que foi baleada, uma sorte grande. Mas depois de tudo que passamos, pouco importa essa história.

Foi um desafio, um aprendizado enorme. Crachás em velórios são desnecessários. Ainda me pergunto se havia mesmo a necessidade de se cobrir aquela situação… Com pessoas públicas deve ser mais simples e apropriado. Antes de tudo, é melhor ser um observador. Aproximar-se como profissional pode ser abutre demais. Talvez tenhamos merecido.