Já era tarde quando a jovem Joannah se recolhia em seus aposentos. Seu bisavô, Dom João da Federação, foi desejar-lhe boa noite, como sempre fazia com suas centenas de descendentes distribuídos naquele castelo.
“Me conta a história do Em Cantos?”
O ancião sorriu. Não era a primeira vez que escutava aquele pedido: um par de vezes por semana, algum dos seus netos e bisnetos tornava a fazê-lo antes de irem dormir.
“De novo, jovem? Lembro-me que já contei essa história para você e para suas irmãs Janelle, Jandirah, Julianna, Jade e Janaina semana passada.”
A insistência da garotinha logo desarmou o bisavô, que passou pacientemente a contar o conto do Em Cantos, uma história conhecida por toda a terra pertencente a ele, de Feira ao Gantois.
“Eu era um jovem soldado em treinamento no Alto de São Lázaro. Junto a mim, outros nove vieram de suas terras natais e das capitanias onde moravam apenas para aprimorarem suas habilidades de combate. Eu era ingênuo e cheio de vida e usava uma armadura de segunda mão comprada nos feudos da Barroquinha. Você conhece alguns dos meus companheiros desta época, como o Marinheiro Marinho ou mesmo Lady Mary da Barra, que lutou bravamente na Batalha da…”
“Na Batalha da Monografia, isso eu sei. Você está divagando, bisavô.”
“Perdão, sempre tive problemas com foco. Isso piorou ainda mais depois do meu 141º aniversário. Voltando…
“Bom, no treinamento, uma das nossas missões era desenvolver uma tática de ataque específica e expô-la para toda a gente. Assim provaríamos que éramos soldados de honra e perspicácia. A nosso lado tínhamos a Rainha Bezerra, junto às conselheiras Má e Braba.
“Estávamos todos empenhados numa tática sobrenatural: usaríamos todos os tipos de fé, de mandinga e superstição para demonstrar nossa força e vigor. Credo!, era o nosso grito, ouvido dos reinos de Ondina aos do Tororó.

Cena de Macbeth (2015), filme de Justin Kurzel, baseado na obra homônima de Shakespeare. Quase tão dramático quanto a fase do produto da 11ª turma do Correio de Futuro. (Imagem: Divulgação)
“Toda a malta tinha tudo planejado. Tínhamos feiticeiras, cartomantes, patuás e até almas penadas em nossa companhia. Lidemos com o triunfo!, bradava Lord Dafné de Stella, confiante, à época apenas um jovem soldado como eu.
“Como éramos pueris e inocentes! Era uma segunda-feira comum, tínhamos acabado de chegar no Alto de São Lázaro para polir nossas armas. Lady Brunt foi ter com a Rainha Bezerra, para saber se nossa tática sobrenatural teria potencial. Quem me chamou?, perguntou a monarca.
“Quando Lady Brunt voltou, tinha os olhos vermelhos e as mãos trêmulas. As ordens são que mudemos de tática, disse. Pois o tempo é curto e somos poucos; usar as coisas sobrenaturais talvez seja um risco inexpugnável.
“Ó, Senhor Deus dos desgraçados!, choramos, neste dia de balbúrdia e confusão. Lady Renatinha pôs-se no chão a blasfemar em italiano, no que não entendemos, mas concordamos.
“Também eu sucumbi ao desespero: gritei pesadamente, chorando por toda a incerteza do futuro. Se esta segunda-feira fosse uma mulher, ela mereceria o título de pior mulher do mundo, lamentei. Lord Dafné tinha as mãos na boca, em duradouro espanto, enquanto Lord Gabriel choramingava um rap, fazendo um beatbox tristonho.
“Estávamos perdidos, sentiamos-nos desorientados. Não sabíamos como prosseguir.
“Duvidoso é nosso destino, incerto é nosso desfecho, disse Lady Mary, a única face tranquila do lugar. Sentemos e pensemos em possíveis vias, pois que elas existem.
“Então, nos reunimos. Estávamos aflitos: tínhamos passado quase dois meses desenvolvendo a tática do sobrenatural. Agora tínhamos apenas um dia para pensar numa nova. Discutíamos com fervor, um soldado interrompendo o outro, mãos que batiam na mesa, gritos que ecoavam por todo o Alto de São Lázaro.
“Quando já estávamos exaustos, um de nós observou o painel do teto de onde estávamos sentados. Travata-se de uma arte sacra que retratava São Caymmi, ao lado de Santo Gil, de São Caetano, Santa Bethânia e Santa Gal.
“Santo Gil e São Caetano. E se os usássemos como padroeiros?, sugeriu um de nós. A ideia pareceu a todos aprazível. Mas por que apenas os dois? Por que não usamos todos eles?, sugeriu outro.
“Fizemos o sinal da cruz, em respeitosa devoção aos santos e santas que cantam a Bahia. Lady Mary pôs sobre a mesa um pedaço grosso de pergaminho e começou a escrever pesadamente com uma pena. E assim o Em Cantos nasceu.”
A noite pesava fora do castelo. A esta altura, a pequena Joannah já esfregava os olhos, lutando contra o sono, mas ainda queria ouvir mais.
“E essa tática deu certo, bisavô?”, perguntou.
“Dar certo é uma expressão muito forte, minha jovem”, respondeu Dom João da Federação. “Mas isso já é outra história.”