Por Gabriel Soares, Jordan Dafné, Lidenilson Marinho,
Maryanna Nascimento e Uilson Campos
Exceto por um amante da matemática, em Salvador, a palavra paralela dificilmente será associada à geometria. Aqui, ela convida a pensar em trânsito, urbanismo e fluxo de pessoas; convida a pensar na Avenida Luís Viana Filho, a maior via da capital baiana. Em meio a tanta modernidade e expansão imobiliária, é difícil desconfiar que por trás daquela selva de pedra se esconde os restos de uma imensidão esverdeada que dá à Avenida Paralela o título de importante área ambiental na cidade.
O trecho abriga fragmentos de Mata Atlântica dispersos em alguns pontos dos 18 km de extensão da via (veja o mapa). O maior deles é o Parque Metropolitano de Pituaçu, inserido em uma área de 450 hectares. Em seguida, vem a reserva florestal do 19º Batalhão do Exército (19 BC), com 200 hectares de vegetação nativa. Menor e não menos importante, há o espaço de preservação ambiental localizado na sede da Organização Odebrecht, com cerca de 3,6 hectares. Esse conta com cerca de 54 espécies de plantas e oito espécies de animais identificadas, como raposas, teiús e serpentes, além de um viveiro, onde, atualmente, em média 1.784 mil mudas são cultivadas para doação.

Reserva de Mata Atlântica na sede da Odebrecht. Foto: Renata Drews
O que esses fragmentos significam? O catálogo sobre a fauna de Pituaçu, levantado pelo grupo ambientalista Gambá, responde com dados: no espaço convivem 26 espécies de mamíferos, 113 de aves, 53 de répteis, além de anfíbios, peixes e artrópodes. Além disso, há uma grande variedade de árvores frutíferas, como mangueira, cajueiro e goiabeira, segundo o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema). Já na reserva do 19 BC, “animais que antes eram criados em cativeiro, como águias e macacos-prego, após passarem por acompanhamento, são soltos na floresta”, afirma o Sargento Júlio Lopes, auxiliar de Gestão Ambiental do local. Os fragmentos são responsáveis, portanto, pela sobrevivência da fauna e da flora na região.
Com o objetivo de preservar e manejar a biodiversidade dos remanescentes, as reservas desenvolvem trabalhos que vão desde a triagem de animais selvagens até a projetos de plantio de mudas como medida compensatória pelas áreas devastadas e estudos de conservação da Mata Atlântica. Segundo o Sargento Lopes, estudantes de Biologia de instituições públicas e privadas de Salvador realizam atividades de pesquisa na reserva. “Esses conhecimentos são angariados para a conservação da Mata”, completa.
Qualidade do ar
O último acompanhamento da qualidade do ar realizado pela Odebrecht, através da Central de Tratamento de Efluentes Líquidos (Cetrel), em parceria com o Inema, conclui que a Paralela não apresenta resultados preocupantes. Por outro lado, a via recebe diariamente mais de 53 mil carros, segundo último levantamento feito pela Transalvador em 2013. Esses veículos emitem dióxido de carbono, gerado pela queima de combustíveis fósseis, que contribuem para o aumento do efeito estufa.
Eduardo Fontoura, gerente de monitoramento da Cetrel, atribui a qualidade do ar às correntes oriundas da orla, que são mais limpas, e à presença das reservas florestais e outras remanescentes do bioma na região, o que não acontece em outras localidades avaliadas pela central. “As estações de monitoramento da Barros Reis e Pirajá, onde se constata ausência de áreas verdes, são as que sistematicamente têm apresentado aumento nas concentrações de alguns poluentes. Contudo, na maior parte das vezes, ainda estão dentro dos padrões nacionais”, afirma Fontoura.
O resultado positivo da Av. Luís Viana e sua ligação com a preservação florestal pode ser explicado através do processo de fotossíntese realizado pelas plantas, que assimilam o dióxido de carbono. Por isso, diz-se que a vegetação da região pode ajudar a diminuir a poluição atmosférica.
Alerta para a Bahia
A Fundação SOS Mata Atlântica divulgou em maio deste ano o ranking nacional de desmatamento do bioma. Nele, a Bahia aparece em segundo lugar com 3.9 hectares de áreas remanescentes desmatadas, perdendo apenas para Minas Gerais, com 7.702 mil hectares desflorestados.
Segundo Mário Mantovani, diretor de Políticas Públicas da entidade, o quadro pode ser atribuído ao avanço da área urbana. “A grande responsável pelo desmatamento no estado é a expansão urbana, em especial nas cidades maiores e na Região Metropolitana de Salvador. Entretanto, algumas regiões apresentam fatores específicos, como no extremo-sul do estado, que a grande vilã da Mata Atlântica é a expansão ilegal dos produtores de carvão”
Com o frequente desmatamento, os danos podem se tornar irreparáveis. Camila Pigozzo, professora de Biologia da Unijorge, ressalta que a prática leva à perda da história biológica e do patrimônio genético em comunidades vegetais, animais e microbiológicas. “Podemos estar perdendo processos como a polinização, a dispersão das sementes, o ciclo hidrológico”, comenta. Para ela, a extinção de outras espécies é um passo em direção à nossa própria extinção. “Esquecemos que apesar de sermos mais de 11 bilhões de indivíduos, somos de uma única espécie no universo de mais de um 10 bilhões de espécies (estima-se) que habitam esse planeta. Somos parte de um sistema e não o dono ou senhor dele”, conclui.