Nós vamos amá-la por ter topado falar sobre aquele assunto que nenhuma outra pessoa poderia tratar com maior propriedade. Na mesma medida, iremos odiá-la por ter nos deixado na mão, naquela terça-feira, seis e meia da tarde, depois das duzentas tentativas de contato, com todos os números de telefone, e-mails, mensagens diretas e batidas na porta.
Vamos torcer para encontrá-la e que nos passe a informação que nenhum outro veículo deu, antes que a concorrência descubra. Assim como não vamos pensar duas vezes em desviar de seu caminho após a publicação daquela nota em que ela nos contou empolgada um livro de Camões inteiro e reduzimos as aspas em duas linhas de jornal, jogadas no canto inferior de uma página par.
Jornalistas e fontes. Nem as mais sofridas tramas de Glória Perez já conseguiram retratar histórias de paixões e mágoas tão intensas e volúveis. As recomendações para a manutenção desse “relacionamento aberto” de “união instável”, e que nem sempre é de dependência bilateral, eu fui descobrir em conversas de pé de ouvido que tive essa semana com os profissionais do Correio, e que elenco a seguir:
Contatos que começam antes no âmbito pessoal que na relação profissional tendem a não acabar bem. Isso acontece porque em algum momento o compromisso do repórter com a informação vai se sobrepor aos seus sentimentos de cumplicidade com a “fonte amada”. Quem dá esse lembrete é o repórter de Cidade, Alexandro Mota. “O distanciamento é importante para não se criar vícios na apuração. Você não pode assumir outra responsabilidade, a não ser a responsabilidade com o leitor”.
Manter um bom tratamento com os contatos é fundamental para o trabalho do repórter, afinal, se a fonte implica e se recusa a falar, torna-se mais complicada a apuração. Criar um clima leve e respeitoso faz com que a fonte se sinta mais à vontade. “Temos que saber como abordar o entrevistado, e isso pode ser feito de modo descontraído. Muitas vezes a linguagem mais informal faz com que a fonte ‘solte’ informações que ela não contaria se o tratamento fosse muito duro”, é a dica da jornalista Giuliana Mancini, que lida diariamente com exclusivas dos famosos na coluna VIP.

Na história verídica retratada no filme Spotlight, o editor do The Boston Globe, Marty Baron (Liev Schreiber), investiga a denúncia de uma fonte e, com isso, consegue provar os casos de abuso sexual e pedofilia praticados por padres e acobertados por membros da arquidiocese católica de Boston (EUA). Foto: Divulgação.
Não estamos falando em sair “pegando” qualquer fonte por aí (risos), mas a pluralidade de vozes é algo que enriquece o texto jornalístico e dá credibilidade ao trabalho do repórter. Ter isso em mente é fundamental para se evitar o chamado “fontismo”, situação em que o jornal passa a ser porta-voz de uma fonte só. Essa lição foi resultante do contato com os profissionais que cobrem Economia e que nos instruem a evitarmos consultar fontes que já apareceram em matérias recentes. Esse, por sinal, é um problema recorrente no jornalismo especializado.
“Nenhuma fonte é 100% confiável”. Essa é o categórico recado do repórter Moysés Suzart, que cobre Esportes. Ele explica que, com o tempo, alguns jornalistas passam a ter tamanha convicção no que algumas fontes lhe passam que chegam a tomar tudo que elas dizem como verdade. “Agindo assim, em algum momento você pode tomar uma ‘barrigada’ ou cometer uma injustiça”, alerta Moysés. Outra coisa a se lembrar é que o jornalista não deve assumir a fala do entrevistado, e que o simples “segundo a fonte tal…” pode livra-lo de problemas maiores. Por fim, o craque na reportagem dá o toque: A fala de nenhuma fonte pode dispensar a boa apuração.
Pode ser cruel a realidade, mas sim! É preciso estar ciente disso, inclusive para saber tirar proveito jornalístico do fato de que a fonte pode estar com segundas intenções. Quem dá a orientação valiosa é Donaldson Gomes, repórter que cobre política no jornal. “Você precisa saber de que lado a sua fonte está e onde ela quer chegar. Sempre que eu recebo uma informação de uma fonte, eu tenho a preocupação de saber qual interesse dela em me passar aquela informação. As vezes isso é tão importante quanto a informação em si”. Por isso o repórter precisa ter a malícia de investigar o que motiva alguém em querer ou não falar com ele e não deixar ser usado. Relacionamento tem dessas coisas, meus caros!