O que eu contarei para os meus netos, em 2054, sobre como conheci São Paulo
Parte I
Kids, thirty-eight years ago eu conheci a capital paulista. Diferente de hoje, em que estou rica, aposentada e com cinco passaportes preenchidos, naquela época eu era uma estudante fora de casa, sem dinheiro no banco.
_ E como você foi parar em São Paulo, maravilhosa vovó?
Muito simples, kids. A maravilhosa vovó nasceu com a bunda pra lua e mais uma vez não gastou um real furado – pelo andar da carruagem, o real de hoje pode se tornar o “tostão” de amanhã. Fui selecionada por uma agência para participar de uma oficina sobre o fact-checking e recebi apoio financeiro para aterrissar no Sudeste.
_ Mas o que é fact-checking?
Esse é um ponto delicado, meu queridos. Naquela época as pessoas mentiam descaradamente, o que era comum também na esfera pública (Será que aos 5 anos eles já vão ter lido Habermas?). Lá no topo da cadeia alimentar, os políticos tinham a ousadia de trazer informações falsas. É aí que nasce o fact-checking. A Agência Lupa, que me selecionou, averiguava a veracidade das falas de figuras públicas. Através de dados acessíveis a todos, eles davam o parecer: exagerado; falso; insustentável; verdadeiro, mas… Agora me deixem continuar a história…
Essa oficina era dentro de um festival, o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo. A vovó aproveitou a oportunidade e participou da maior parte da programação. Querem saber como foi?
_ Não, vovó. A gente queria brincar no seu jatinho.
Queria. Pretérito imperfeito. Mas fiquem tranquilos que serei breve.
No primeiro dia, fui para a oficina. Houve uma apresentação da Cristina Tardáguila, diretora da Lupa; Raphael Kapa e Rodrigo Padula, da Wikipédia. Fui introduzida ao trabalho deles. A Wikipédia, que hoje é a enciclopédia de mais credibilidade, naquela época ainda estava se consolidando.

A vovó checando a página do Haddad na Wikipédia
_ Mas não era uma oficina de fact-checking? O que a Wikipédia tem a ver com isso?
Sim, boa questão. A Wikipédia estava lá porque nós estávamos checando os verbetes publicados no site.
Bom, tenho outra informação relevante sobre aquele dia: depois do trabalho, fui para um bar. O litrão custava R$ 8,00. Bons tempos.
No segundo dia, vi a palestra de Thomas Kistner – que Deus o tenha em um bom lugar. Ele escreveu Fifa Máfia, um livro de 2012 que aborda o poder dentro do mundo do futebol.
Acabou a palestra e a vovó conseguiu uma cortesia para ver a conversa com o João Dória, um homem que nunca havia disputado nenhuma eleição mas que assumiu a prefeitura de São Paulo em 2017. Kids, ele era muito engraçado. Vocês acreditam que ele só aprendeu a comer pastel durante a campanha? E o mais divertido: o sonho dele era que todos os brasileiros estivessem usando Ralph Lauren hoje.
Depois desse stand-up, fui para a oficina de fact-checking e coloquei a mão na massa. Chequei o verbete de Fernando Haddad, que assumia São Paulo antes do João. De cara já encontrei um falso e um verdadeiro mas… Pense que beleza.
Para encerrar o dia de atividades, ouvi o Walter Robinson falar sobre o seu trabalho como jornalista. Ele me deu um soco no estômago quando disse: “No Brasil tem 18 mil padres católicos e um número pequeno de molestados. Por quê? Essa é a pergunta que vale fazer.” Eu nunca esqueci essa frase. Na palestra ele trazia o processo de construção de uma matéria que denunciou que mais de 10% dos padres de Boston abusavam as crianças. No Brasil era diferente ou faltava investigação? Aquilo me causou muita inquietação.
Bom, meu queridos. Acho que por hoje já deu. Vamos brincar de jatinho.
Parte II
Kids, preparados para o fim da história?
No meu terceiro e último dia em São Paulo, conheci a Paulista dominical. Olhem só essas fotos que a vovó tirou. Não é uma cidade incrível? Visitei também a Pinacoteca, a 25 de março, a Estação da Luz, o bairro da Liberdade, o Mercadão…
Nesse dia também havia assistido uma palestra com o César Batiz, um jornalista venezuelano. Ele discutiu o panorama do seu país e trouxe uma informação curiosa: nos três anos anteriores àquele, 23 jornais haviam fechado as portas. Na Venezuela simplesmente não havia papel jornal, mas isso é o de menos se pensar na falta de alimentação, produtos de higiene… Foi um período triste, meus queridos.
A oficina de fact-checking seguia em tom de despedida. Aproveitei um pequeno intervalo e fui ao auditório ver o Jon Lee Anderson. Os poucos minutos que assisti já me deixaram com o coração aquecido. Jon havia escrito a biografia de Che Guevara e através desse trabalho os restos mortais do Che foram encontrados. Vocês acreditam?
Pra encerrar, vi um pequeno trecho da palestra do Gianni Barbacetto. De vez em quando eu tirava os fones de ouvido para ouvir aquele sotaque italiano tão lindo. O Gianni escreveu um livro grandão sobre a máfia italiana, o nome é Mani Pulite. Depois o vovô lerá para vocês. (eita!)
Bom, meus queridos, assim foi o meu pequeno passei por São Paulo. No último dia, para não deixar de ser eu, me atrasei e cheguei no aeroporto faltando meia hora para a partida. Gosto de adrenalina. Em breve a vovó conta mais histórias para vocês.