O quinto dia de imersão (18/10) na redação do Jornal Correio resumiu-se com este aspirante à jornalista e uma repórter de economia fazendo o papel às avessas do dramaturgo italiano Luigi Pirandello na peça “Seis personagens à procura de um autor”. Em vez dos personagens abandonados estarem à procura de um autor, eram os “autores” que estavam atrás dos personagens, como é rotina no jornalismo.
O objetivo era encontrar um protagonista depressivo para uma reportagem sobre dívidas. Foi como procurar agulha no palheiro. Os editores ainda tiveram que lidar com obstáculos que vinham de dentro do próprio jornal.
Veja, por exemplo, que o caminho até potenciais personagens foi indicado: uma ligação para o Juizado de Apoio a Endividados, o único em Salvador, foi o suficiente para ter noção de onde se poderia encontrar o personagem. Porém, no momento o jornal não pôde oferecer o carro para que a repórter pudesse ir até o local. Sendo assim, uma ótima oportunidade foi deixada de lado e a possibilidade de apuração foi limitada somente a telefonemas, e-mails e até redes sociais como Facebook e Whatsapp.
Como no teatro (ou qualquer outro gênero de ficção), a reportagem precisa de um protagonista que vai humanizar o relato. Na editoria de economia, é esse personagem que traz algo do sentimento humano à frieza do mercado. Entretanto, a dependência a esse personagem compromete a reportagem. Sem ele não é possível construir uma narrativa atraente e o noticiário econômico fica limitado a exposições de números, gráficos e ações de empresas e instituições. Um estilo considerado “chato” por parcela dos leitores.
O que acontece na obra de Luigi é a antítese do que acontece no trabalho do jornalista. Na peça, um ensaio do autor é invadido por seis personagens que o convidam a encenar suas vidas. Certamente, o desejo mais íntimo de todo repórter é que o personagem certo sempre apareça e o convide para fazer a reportagem.