Existe uma Salvador, distante do Centro, que consegue contar duas verdades distintas e opostas de um mesmo fato. “Que problema há nisso se a impenetrabilidade de Newton só é garantida aos corpos e não às ideias?!”. Nenhuma, se o disse-me-disse em questão não acontecesse em correlação direta às quase 4 mil mortes de adolescentes de 16 e 17 anos no Brasil.
De antemão, um ato que julgo responsável para legitimar o título: alguma das partes não está mentindo nessa história.
Essa fatia da capital baiana é periférica – tanto no conceito social, como no conceito geográfico – e nos traz uma relação entre povo e Estado tão conturbada quanto a volta da Ilha de Itaparica para Salvador pelo sistema ferry-boat ao final de um feriado prolongado. Valéria é o nome dele. O bairro em que eu, no primeiro dia dos meus 29 pré-verões, conheci com os meus olhos e minha alma aquilo em que leio nos livros de realidade social desde os 15.
A literatura te mostra; a vivência te ensina
“Aêêê! Chegou a imprensa, agora quero ver eles darem tiro de borracha na gente”. Essas palavras foram suficientes para nortear a minha empreitada. Ali existia e estava posto dois lados, e nós, prioritariamente, seriamos os únicos que lados ali não deveríamos ter. E ‘nós’ é o gancho que uso para contar que eu acompanhava a repórter Tailane Muniz, do Correio, em mais uma pauta de cidade e/ou polícia numa manhã de segunda-feira.

(Foto: Tailane Muniz/CORREIO)
Estávamos cobrindo a paralisação dos servidores da UFBA contra a PEC 241, quando ela atendeu o celular da redação. “Gabriel, manifestação dos moradores de Valéria em protesto contra a morte de um menino. Vamos pra lá!”. ‘Oxe’ e ‘bora’ foram as expressões que eu a respondi exclamativamente.
É no imbróglio desta manifestação que estão as duas histórias (como já dito, opostas e distintas) sobre o mesmo fato. A família do rapaz morto e o pastor da igreja em que ele congregava afirmaram que a polícia militar o assassinou. A polícia militar, por sua vez, afirma que a morte foi decorrente da troca de tiros entre os servidores do estado e nove pessoas armadas e envolvidas com o tráfico, incluindo o agora não mais vivo.
“Nós estávamos voltando de um culto a céu aberto, quando os policiais retiraram a bíblia e a sua filha dos braços dele, e o levou para uma lateral da rua”, relata o pastor.
“Uma guarnição da polícia foi recebido a tiros quando adentrou o bairro, e aí começou a troca. O rapaz morto estava com mais oito meliantes armados, todos eles envolvidos com o tráfico de drogas”, conta o comandante da companhia independente responsável pela região.
Uma das verdades dessa história é que uma criança de onze meses vai crescer sem o pai. A mãe dessa criança desmaiou na minha frente, disseram que ela não estava se alimentando bem. Outra verdade é que uma senhora, grávida de oito meses, vai enterrar um dos seus nove filhos. E a pior de todas elas: lá, em bairros distantes do foco comercial desta tão bela capital, isso aconteceu ontem, vai acontecer hoje e amanhã. Logo, explico que essa reflexão não é somente uma constatação, mas sim o sinal de uma inquietude minha do entendimento de a quem serve e para quê serve essa guerra.
É público e notório que nos bairros periféricos (socialmente falando), onde as condições de vidas são postas em situações de desconforto devido a uma estrutura precária, há uma forte presença de organizações do tráfico de drogas com grande poder de fogo e numa guerra declarada contra as instituições da segurança pública. É papel profissional da polícia militar, combater qualquer prática criminosa. Entretanto, não é custoso utilizar a ferramenta da observação para constatar que a atividade comercial mensurada não é majoritária na movimentação comercial, cultural e antropológica dos bairros.
O grande problema surge quando os relatos dos populares apontam para um comportamento da polícia que não separa o joio do trigo. “Eles chegam dando tiro pra tudo que é lado pelo meio da rua, qualquer hora do dia, como se todo mundo fosse vagabundo. Eu trabalho e estudo. Hoje mesmo, a manifestação era na rua, e eles chegaram dando tiro de borracha, pegou em duas amigas da gente”, contou uma das manifestantes, prima do rapaz morto.
A polícia militar afirmou ter usado a força necessária para desobstruir a via, mas negou a utilização de tiros de bala de borracha. A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Valéria confirmou a entrada de duas mulheres com ferimentos ocasionados por tiros de balas de borracha na mesma manhã.
Isso tudo me faz constatar que existem duas práticas diferentes por parte do estado em duas regiões da mesma soterópolis, mesmo que as leis constitucionais estejam previstas para todos. Afirmo isso com tal certeza, pois os bairros onde nasci e cresci existem tráfico de drogas, bandidos armados, mas não existem abordagens abusivas (como presenciei nesta mesma experiência) e mortes de desfechos múltiplos (?) com a mesma frequência.
A comemoração em ver o carro da imprensa acaba me colocando uma responsabilidade a mais, ainda que a nossa ajuda não esteja ao alcance da expectativa e necessidade dessas pessoas. “Quando vocês saírem é que a gente vai ver coisa”, parecia torcer pela nossa permanência, mais uma moradora. Logo após a saída dos carros das tv’s, começou o corre corre. “Lá vem elas..lá vem elas”, gritaram. Duas viaturas da Rondesp passaram pela rua, realizaram uma abordagem e foram embora.
O repórter fotográfico do jornal não foi até o local onde a mãe do falecido estava, porque os moradores disseram ser perigoso para nós e ele. Perigo de..? Algo ameaçador, que não o Estado, rege uma segunda força, paralela, e tão autoritária quanto aquela institucionalizada. A partir daí, você tira suas conclusões. Eu sei em qual mentira vou acreditar!
*O título é homônimo a uma música, que nas suas primeiras estrofes abordam o mesmo assunto.
*Conheça o Mapa da Violência e a campanha Jovem Negro Vivo
*Leia as duas matérias redigidas por Tailane Muniz, oriundas desta apuração
‘Quero justiça’, diz mãe de ajudante de pedreiro morto pela PM; assista
Protesto contra morte de morador acaba em confusão com a PM em Valéria