O cortejo fúnebre

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Quando as badaladas do sino da igreja matriz ecoam pela cidade, todos os munícipes suspiram calados, em consternação com a ida de um conterrâneo para outro plano. No cortejo fúnebre, todas as portas da Rua das Flores são fechadas em sinal de respeito ao falecido. Na hora da despedida, não importa o diploma ou o antecedente criminal do defunto. O frenesi das beatas em oração e o choro da família sempre acompanhará o caminho do sujeito até o encontro da luz.

Criado nesse cenário, tipico de uma pequena cidade do sertão baiano, nunca imaginei que, com pouco tempo de vida litorânea, a morte do outro se tornaria algo tão ‘banal’. Mal posso contar quantas vezes escutei a palavra morte, nessas duas primeiras semanas de imersão na redação do Correio*, sem me sentir desconfortável  imaginando a dor de quem perde um ente querido.

Está sendo difícil aceitar a ideia de que, esse evento natural da existência, é algo corriqueiro nessa metrópole com pouco mais de 2 milhões de habitantes. Está sendo mais difícil acreditar  ainda que, para alguns profissionais da comunicação, a morte do outro pode ser algo excitante, se o sujeito é um bom personagem e as circunstâncias de sua morte pode render uma boa página de jornal.

Esse período de pré-produção do produto final, onde aprendemos na prática a dinâmica de uma redação, está sendo também um momento de encontro com as minhas origens. Em nenhum outro momento, nesses três anos de península, me senti tão alheio a tudo e a todos como me sinto agora. Os bastidores de um periódico, por um lado, me anima, por outro, me transforma naquele garoto de pés descalços que sempre recorria ao colo da mãe quando o mundo parecia desabar.

Lidenilson Marinho
Lidenilson Marinho
um rapaz sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do sertão.