Quem preso em pauta fica, nem a ela preso estará

Ilustração de Elly Smallwood.

Ilustração de Elly Smallwood.

Um relato sobre o primeiro dia em que fui apurar sozinha na rua.

Nos últimos dias, a noção de que a dor faz parte de tudo, o que não faz parte é se acomodar com ela, tem feito maior morada graças ao fato de ser ‘uma futura’. O despertador já não é inimigo e o sol já não cantarola o fim do sono, mas sim as esperanças do novo caminhar. Para a surpresa de qualquer ser humano que acompanhou a minha árdua relação com a matemática na época da escola, estava o meu rosto com os lábios elastecidos por ficar, naquela manhã, em Economia. As luzes [poeticamente falando] foram ligadas na fase de palestras, em que tivemos também um contato maior com a ‘temida Economia’, e foi quando os meus olhos perceberam que o monstro era, de fato, apenas armário. Afinal, o jornalismo, em sua prática, comprova sempre mais o quanto tudo está interligado, exemplificando como um singelo fim de semana em família pode significar um universo de pautas para a editoria em questão.

Economia não significa apenas contas, porcentagens e palavras a serem temidas. É sobre a curiosidade da feira em promoção, sobre a novidade de um novo emprego com salário impactante, sobre o que o repórter irá traduzir da maneira mais tangível para qualquer leitor. Especialistas poderão explicar aquele termo complexo ou esclarecer sobre aquela conta que vemos como fatigante e labiríntica. É tudo questão de buscar novos meios, de formar contatos, de conectar ideias com fontes e de lembrar que não precisamos saber de tudo, mas que devemos ter sede de tudo. Sede para jamais negar aprendizado, seja sobre e para o que for – já que não se sabe quando aquele círculo poderá ser o que falta para completar um retângulo.

Com as percepções então mais flexíveis e clareadas, cheguei na redação aguardando mais lampejos. Jorge Gauthier, repórter de Economia e múltiplas áreas do jornal, iria apontar a primeira pauta do meu dia. “Pegue o bloquinho e vamos lá, vou explicar para você do que se trata e logo depois pode ir para a rua apurar”. Anotei fervorosamente cada detalhe e incrementei ideias extras de perguntas para as possíveis fontes, afinal, um dos maiores erros de um jornalista é não tentar ir além.

A ideia de base constava em entrevistar os donos das kombis que estão fazendo sucesso ao vender alimentos com preços reduzidos pelas ruas de Salvador, após, seria imprescindível falar também com os respectivos clientes. Logo, o primeiro passo seria o de caçar esses veículos. Com uma lista de locais nos quais o encontro seria mais provável, levantei corpo e mente da cadeira com entusiasmo e fiquei no breve aguardo de que Jorge indicasse qual o outro estagiário, repórter ou, enfim, ‘pessoa’ que iria ao meu lado.

“Não, ninguém mais vai. Você vai sozinha mesmo”. Ao ouvir esta frase o meu coração pareceu balbuciar em uma mistura de alegria com pontadas de apreensão. Meu rosto já não sentia as cocegas feitas pelos desgrenhados fios de cabelo e, enquanto digeria o fato, agilizava o processo encaminhando as pernas na direção do carro.

“Para onde vamos?”, perguntou o motorista. Citei um dos locais da lista e a indagação no seu rosto não findou. Com a testa franzida, ele retrucou: “Certo. Mas em que área especificamente?”. Eu, que nunca tive uma grande preocupação em gravar os nomes das ruas e afins, reparei que a imaginação, a criatividade, os olhares abrangentes e cada detalhamento antes considerados como principais, não eram suficientes para quem, simplesmente, ignora algum tipo de amplitude do saber. E esta foi somente a primeira lição fundamental do dia.

Após as minhas destrambelhadas tentativas de indicar os locais com maiores clarificações para o motorista, determinamos o roteiro e seguimos viagem. Durante os caminhos, as minhas pupilas fixavam em todas minúcias possíveis ocorrentes nas ruas. Tanto pela necessidade de achar as kombis como pela indispensabilidade de estar com visões abertas para outras possíveis e mais urgentes pautas. Os minutos corriam, o carro estava passando por diversos bairros e nenhum dos veículos essenciais para a matéria estavam sendo encontrados. “Creio que neste horário vai ser difícil de você achar essas kombis”, alertou o motorista. E então? Por não encontrar o que seria basilar na pauta, deveria desistir?

Analisei os entornos dos locais com mais fulgor e eis que surge a ideia para o suporte: “Vou passar em todas as feirinhas, mercados e barracas de frutas, ovos e afins. Os clientes desses locais podem também adquirir produtos nessas kombis e os donos dos estabelecimentos devem saber sobre essa ‘concorrência’. Podemos parar o carro aqui no canto da rua mesmo!”, exclamei. Com bloco e caneta nas mãos, entrei em cada recinto e fui perguntando sobre as kombis para os consumidores locais, as pessoas que trabalhavam nos caixas e os donos das estruturas. Todas as perguntas que estavam anotadas na pauta, estavam sendo cobertas, mas apenas em diferentes circunstâncias.

Após 3 horas na rua, indo de bairro em bairro, encontrei no Tororó duas kombis de ovos. Alegria! Ao entrevistar os proprietários, que ficaram retraídos e temorosos por mais que houvesse a clareza de que os nomes poderiam ser ocultados, reparei o quanto perderia caso ficasse ‘presa somente no que a pauta indicava’. Afinal, caso ouvisse somente os donos dos referidos automóveis e os seus clientes, perderia as vozes tão enriquecedoras dos consumidores e patrões dos outros estabelecimentos, que emitiram informações curiosas e nutridas em seus papéis de fregueses e competidores das kombis. Eles, mais do que os encontrados no final, fizeram a pauta ser mais bem apurada, já que uma boa apuração, de fato, não é aquela que comprova somente o esperado, mas sim aquela que, principalmente, traz o olhar do poeta – o tesouro que provavelmente ninguém mais enxergou ou encontrou, a surpresa, o ponto mais inédito/curioso.

Marco então, no caderno de lições, a segunda obtida. A pauta nunca é o bastante, ela não acaba quando é finalizada nas mãos de quem a formulou em primeiro momento, ela é bússola a ser revista com novas ferramentas para quem direciona os nortes. É necessário sempre pensar em mais pessoas impactadas pela ideia, em mais vidas ao redor, em mais ligações com o que acabou de ocorrer, em mais problemáticas envolvidas, em mais possibilidades que podem parecer estranhas inicialmente e, no fim, podem levar ao maior casório; é necessário olhar para o outro lado da rua e para ela como um todo – e que isso seja compreendido metaforicamente. Quem fica preso somente ao que a pauta indica, não somente perderá sensos para salvar a própria pauta, como também perderá oportunidades incríveis para encontrar o ouro.

Afinal, a maior interrogação vem quando desiste do mistério e a melhor limpeza chega para quem se suja um pouco mais. Quem preso em pauta fica, nem preso a ela estará. Estar preso a uma pauta, no sentido realmente saudável, é lembrar de acrescentar nela, linhas. É lembrar de enxergar nela, entrelinhas. Quem segue a pauta à risca e não se arrisca, está sendo sereia sem cantar. O segredo é fazer tudo o que ela pede e mais, já que só pegar na bola e rede sem goleiro não significa fazer gol.

A terceira mensagem que guardei intrinsecamente veio do meu erro de não ter ligado para Jorge antes de voltar para a redação, afinal, quem criou a pauta pode saber sobre alguns detalhes que poderiam incrementar ideias enquanto eu ainda estava na rua, mas isso é lembrete para aprofundarmos depois. Ao chegar em casa, no mesmo dia, encontrei no meu livro “Entre Chaves” uma frase na qual enxerguei forte laço com a temática. Portanto, com ela finalizo as minhas listagens de aprendizados do dia, já que a escrevi pensando em um relacionamento amoroso e hoje a vejo como um dos meus lemas jornalísticos (olha só, como tudo, no fundo, tem lá sua grande conexão): Quando eu desistir, tenha a certeza de que na verdade apenas cheguei ao ponto em que parei de procurar, mas ainda estou com a lupa no bolso.

Vanessa Brunt
Vanessa Brunt
Apaixonada por entrelinhas, por analisar, por reler e por sentir. É cronista, poetisa e escritora. Autora de como livros como o "Entre Chaves”, do futuro "Depois Daquilo" e mãe do blog de análises "Sem Quases".