Crônica de uma decepção anunciada

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Pelo menos dois detalhes chamaram atenção durante a imersão na editoria de Esportes: toda complexidade e dificuldade que envolve a prática do jornalismo esportivo e a imensa possibilidade de desilusão que o repórter apaixonado por futebol pode sofrer.

Segundo alguns jornalistas, em certas redações há o preconceito contra o jornalismo esportivo. Nesses locais, a editoria de Esportes é vista como o lugar para os jornalistas que não têm capacidade de cobrir economia ou política. Porém, na prática, é notável que o jornalismo esportivo seja tão complicado quanto qualquer outra editoria.

Tome como exemplo a apuração feita nesta imersão: cobrir um treino do Esporte Clube Vitória e depois entrevistar um dos jogadores na coletiva para produzir uma reportagem factual.

Percebia-se que não seria fácil encontrar a noticia ali. A boa observação do treino tático poderia ser uma saída, mas o público não está interessado se o Vitória jogará no 4-3-1-2. Para o torcedor comum os únicos números que importam são os do placar.

A noticia então teria que vir da declaração jogador que dará a entrevista coletiva. O problema é que não é nada fácil arrancar uma declaração de muitos jogadores que não seja um ‘lugar-comum’. Portanto, como todo bom jornalista, o repórter esportivo deve dominar a complicada arte de perguntar ou estará fadado a fazer matérias pobres.

Os sinistros bastidores

Em um determinado momento, uma repórter esportiva que estava cobrindo o treino deu a entender, em um comentário, que era uma torcedora apaixonada, mas que passou a ser mais crítica. Segundo ela, ter contato com a “imundice” dos bastidores do futebol a fez ficar assim.

Não é a primeira vez que um jornalista esportivo dá uma declaração nesse sentido. Em entrevista ao Portal Comunique-se, o blogueiro Cosme Rímoli afirmou com todas as letras que desde que passou a construir sua carreira como repórter deixou de torcer por times de futebol, os quais ele chama de “ilusão“.

A corrupção é uma praga que atinge todos os níveis da sociedade civil e do Estado. O leitor atento de jornais já viu inúmeras vezes denúncias contra a roubalheira no futebol brasileiro. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é até chamada de ‘casa bandida do futebol’ por alguns jornalistas. O envolvimento de dirigentes de clubes em escândalos também é rotineiro.

Diante de tanta podridão, aquele jovem repórter de esportes e torcedor apaixonado muito possivelmente irá se desiludir quando descobrir os sinistros bastidores do seu time de futebol. Parafraseando Gabriel Garcia Marquez: é a crônica de uma decepção anunciada.

(Foto: Portal dos Jornalistas)