Conta-se nas redações que há muito tempo atrás, em um templo abstrato e desconhecido, uma trágica história de amor acabou por enfeitiçar uma série de gerações subsequentes. Tudo começou quando um chamado dos deuses da comunicação chegou até um jovem inexperiente e animado que habitava as redondezas do santuário. O chamado exigia que a partir daquele momento o jovem reportasse com maestria, clareza, e sobretudo, verdade, tudo que acontecesse entre os homens.

Sem saber por onde começar, o jovem saiu pelas vilas observando tudo e todos, com um olhar doce e desmontado das suas convicções pessoais. Foi entre esses olhares que os olhos dele encontraram a íris de uma moça um tanto diferente. Não havia uma forma de descrevê-la e tão pouco limitá-la, ela era quase intangível e de alguma maneira parecia estar todos os lugares.

Intrigado com aquele ser quase celestial o jovem não se conteve e debruçou-se mentalmente sobre ela. Conversaram por vários minutos que se transformaram sutilmente em horas e mais horas. Cada palavra dita por ela revelava um lampejo de expectativas e ideias no interior do rapaz, quanto mais ele sabia, mais ele se interessava. Foi assim que em questão de dias eles construíram uma relação intensa e magnética, ele se movia, ela também. Agora já adentravam um o mundo do outro, ou talvez já fossem um só. Beijavam-se violentamente, enalteciam os corpos em um mesmo impasse.

Romeo and Juliet | Ford Madox Brown

Romeo and Juliet | Ford Madox Brown, 1870

No dia seguinte, com o coração ardente e os olhos brilhando, a moça foi em busca do jovem que não a procurara novamente após o belo incidente do dia anterior. A chama do coração se apagou e o brilho dos seus olhos desmanchou quando o viu naquela mesma intensidade com uma outra mulher. Agora, ele pertencia a um outro mundo, estava mergulhado em novas nuances e temáticas, e não havia tempo para dividir com ninguém, porque entregava-se por completo a cada novo olhar que conhecia.

Ele era o jornalista, ela, a informação, e o chamado dos deuses os enfeitiçou. Por toda a eternidade os dois estariam conectados e seria impensável pensar em um sem o outro, no entanto, enquanto o jornalista passearia por vários mundos, várias informações, vivendo cada uma delas intensamente através da apuração, do estudo e da infinita busca por extrair mais, a informação deveria permanecer intocada por seu caráter verdadeiro e pela preciosidade do seu caráter de expansão. Uma informação levará sempre a o outra, e a outra, e a outra…por essa razão, o jornalista deveria sempre envolver-se integralmente com ela, beijá-la ascendentemente e tocá-la ao longo de toda a sua expansão.

Surpreendentemente, a moça era comum, tinha lá suas particularidades, mas era apenas uma simples moça. A magia não residia nela, mas sim no olhar do jovem, que sob a ótica de debruçar-se e descobrir mais, fez dela especial.