O que mudou quando Pedro conheceu um revólver calibre 38?

Era aproximadamente quinze horas. Associo o horário ao intervalo na escola de ensino primário, durante a minha infância. Eu, há 10 anos, certamente estava comentando com os meus colegas sobre o tamagotchi ou walkman que havia ganhado no dia anterior. Hoje, nem eu, nem Pedro* estávamos gozando as prendas do 12 de outubro. Eu, porque já sou um pouco velha para receber bonecas falantes; Pedro, porque apesar de ainda ser uma criança de 11 anos, ao invés de contar no horário do recreio sobre os seus brinquedos, balbuciava para a inconveniente família curiosa como o seu pai havia sido assassinado na sua frente: com dois tiros de um revólver calibre 38 – arma que ele conheceu às 5h da manhã de hoje.

Com uma camisa que estampava a bandeira do México, o garoto segurava firmemente uma extensão ligada a um carregador de notebook e um livro de Ricardo Azevedo, Cultura da Terra. Pedro esperava pelo seu computador, mas foi proibido de levar sem a autorização das filhas biológicas do seu pai. O menino precisou partir e aquilo eram as únicas coisas que ele havia conseguido resgatar, além das roupas. Os objetos seguiram com ele para a casa da mãe.

Os pais não viviam juntos e sequer já haviam mantido alguma relação conjugal, segundo testemunhas. O garoto, aos dois anos, foi adotado por Cláudio*. A mãe vive em outra casa, na mesma cidade, com a sua companheira. Pedro foi criado sem uma efetiva figura materna.

“Ele era mais pai do meu filho do que eu sou mãe”, confessou Daiane*.

A educação de Pedro era visivelmente religiosa. Ele e o pai viviam sozinhos em uma pousada própria de 50 dormitórios, na Ilha de Itaparica. Em frente a cada quarto de hóspedes, salmos estavam escritos em letras vermelhas. Dentro do cômodo em que o crime aconteceu, não era diferente, havia a palavra de Deus por todos os lados: quadros, Bíblia, CD gospel e histórias infantis sobre os clássicos do sagrado livro cristão.

Na fachada da propriedade, um versículo me chamou atenção: “Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi Adão, depois Eva” (1 Timóteo 2: 12-13). Na tarde de hoje, Pedro deixou muito mais do que um notebook para trás; deixou a roupa de cama suja de sangue, a figura paterna e a sua referência do que é uma família. A partir de hoje Pedro será ensinado por duas mulheres e, dessa vez, contrariando o tal discípulo do século I d.C, sem a autoridade de um homem. Duas balas mudaram todo o destino de Pedro.

 


O texto foi escrito após a minha imersão na editoria de Cidade, seção Policial, no dia 13 de outubro de 2016. Na ocasião, acompanhei Bruno Wendel (repórter), Evandro (fotógrafo) e Florisvaldo (motorista) na cobertura de um assassinato em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica. Pedro, o filho de 11 anos, presenciou a morte do pai, que aconteceu por volta das 5h na pousada da família.

*: Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas