Na fluidez de uma sociedade líquida só sobrevivem os que conseguem se reinventar. A efemeridade dos dias que correm e tropeçam nas obrigações e necessidades se intensifica e obriga a mudar. Mudar as mentes, os rumos, reformular as fórmulas, reescrever o mundo.
No entanto, a reconstrução é sempre um processo doloroso, pois estamos agarrados nas raízes das tradições, que sempre funcionaram perfeitamente e nos conforta por raramente engendrarem desafios. O que queremos mesmo é deitar e rolar nas nossas zonas de conforto, fazer o que melhor sabe fazer e no final de tudo se sentir realizado, mas uma vez que o mundo muda e consequentemente tudo também se transforma, as raízes que nos aprisionam precisam ser cortadas.
Esse processo não necessariamente será marcado pela angústia se nos abrirmos para um novo contexto que só tem a nos enriquecer, se desmontarmos peça por peça do quebra-cabeça que compõe nossas peculiaridades, tal qual os recortes de jornal que Hélio Rocha faz para dar vida a novas imagens, e organizá-lo estrategicamente pensando em como quase tudo mudou. Falando em jornal, o próprio jornalismo vem sofrendo significativas mudanças, ganhando cada vez mais espaço na internet e se moldando na nova lógica da sociedade.
Para que o jornalismo continue mudando, é essencial que o jornalista mude, e para que o jornalista mude ele precisa, antes de tudo, se desmontar. Desmontar as preferências editoriais, porque o jornalismo é um só. Seja em cultura, esporte, economia ou cidade, TV ou rádio, jornalismo é jornalismo. Desmontar a posição profissional e saber se colocar no lugar do leitor, desmontar a forma de ver o mundo e enxergar nos fatos mais sutis pautas para grandes notícias e reportagens, desmontar dos interesses individuais e ter consciência de que o que parece irrelevante para você é informação fundamental para determinados públicos, desmontar até o próprio texto, que na conjuntura moderna, deve ser curto, dinâmico, envolvente e sequer limitar-se às palavras, pois agora o mundo pertence as imagens, logo, o discurso jornalístico deve transcender a linguagem verbal e abarcar a dimensão visual. O jornalista do agora não se restringe ao texto, pensa na sua página inteira, nas fotos, nos infográficos, em tudo aquilo que, para além do texto, informará.
Em meio a tantos desconstruções, nos parece que ainda há muito para caminhar, e de fato tem, entretanto, é preciso assumir a possibilidade de que amanhã ou depois, talvez, tudo que aqui foi supracitado perca o sentido, porque se o mundo já é outro, então o jornalismo também será. Todavia, os desmontes e remontes serão sempre necessários. Independente do contexto, mudanças sempre estão prestes a acontecer. Portanto, destrua-se desde já, e desmonte o medo de desmontar.

Colagem com retalhos de jornal do artista Hélio Rocha | Acervo digital