
Imagem por Salvador Dali / Quadro “A Persistência da Memória”
“O que destrói as coisas não é a rotina, é a falta de curiosidade” (Carpinejar).
Se mar calmo nunca fez bom marinheiro, a acomodação nunca fará bom investigador. E o que é o jornalista senão um detetive das entrelinhas? Linda Bezerra, editora-chefe do Jornal Correio, certa vez lançou a síntese: “o bom pauteiro é o poeta do jornalismo, ele enxerga no trivial a singularidade que vários não conseguiram ver”. Eis então que, como poetisa em eterna formação, vejo no sapato a casa, na casa o laço e no laço a noção de que liberdade é saber ao que se prende. A única real prisão em um elo, é ser condescendente.
Segunda-feira, segundo dia de imersão e o carro que, às 6h20, seguia destino para a Rede Bahia, já era oportunidade para iniciar a caça aos tesouros. Celular em mãos, 3g a postos e vamos “googlar”! Navegar nas redes sociais, nos diversos sites e nas possibilidades extras atrás de uma nova pauta, bem como estar com os olhares atentos a cada detalhe nas ruas e ambientes, é fundamental para qualquer repórter. Se não há gosto em ser Sherlock Holmes, que trabalha de forma independente, não há acréscimo que brilhe para a equipe.
Ninguém deve precisar pedir para que você comece, ninguém precisa ter que empurrar as suas costas para você se molhar. Acomodar-se é também ficar na espera sem cometer novos atos, sem tomar iniciativas, sem indagar e sem causar algumas saudáveis rupturas. O jornalista precisa prosseguir os pés enquanto está no banco da praça.
O importante é a tentativa que, no jornalismo, não é tentar. É fazer com completude até onde vier tsunami ou luz, é ir logo, é ir antes, é dar a cara a tapa, é não ser quase, lembrando que nem tudo será como se pensa, mas que tudo deve ser pensado. E a palavra “pensado”, nesta nossa área, é sinônimo de já buscado, aprofundado, agido. A intenção, ou melhor, a intervenção, é o que mais conta. Seja para vingar naquela horta ou para ser parte de semente em outra.
Recapitulando a minha caminhada de permanente aprendiz, ao chegar na redação, com o sol ainda dizendo a que veio, as cadeiras começando a receber vida e cada ser ali concentrado no nascimento das novas descobertas, não havia alguém disponível para determinar: “Brunt, comece por aqui!” ou “Vamos, diga algo”. A intromissão respeitosa é, então, a grande porta de quaisquer jornalistas.
Tomei posse de uma cadeira, um computador, pedi licença e fui disparando para a – ocupada – editora de Cidade, Perla Ribeiro, os resultados das minhas pesquisas. Após colaborar por não ter ficado olhando para o teto em aguardo de uma luz central, fui encaminhada para apurar, na maior arquibancada do Brasil, uma das pautas encontradas: o caso da morte de um traficante; o que estava afetando, inclusive, a circulação de ônibus no bairro onde morava. E, com olhos atentos, porém literalmente arregalados, fui.
Ao entrar na viela necessária, era possível observar rastros de sangue pelo chão, a rua deserta, as casas sem gretas e as escolas fechadas. Crianças estavam dentro dos lares e as poucas pessoas que iam surgindo no local, não queriam conceder entrevista por medo de represália. O que fazer? Como ser “intrometida” em uma situação assim? Fiquei quieta enquanto observava o trabalho de Tailane Muniz, estagiária que estava cobrindo a pauta.
Ao encontrar um personagem disponível, que foi educado e receptivo ao receber o nosso “boa tarde”, ela nos apresentou, pediu permissão para entrevistar e criou um ciclo cuidadoso de perguntas, não indo diretamente para o assunto temoroso. A repórter, que já tem uma experiência mais vasta, pegou o gancho em uma das outras vítimas do caso. “Soubemos que uma garota foi atingida por uma bala perdida aqui na região na noite de ontem. Você soube de algo sobre essa situação?”, perguntou. Assim, foi conversando sobre a polícia, sobre os tiroteios ocorrentes no espaço e, aos poucos, após deixar o moço mais à vontade, introduziu a nossa questão principal: “Um Gustavo* acabou vindo a óbito, não foi? Ele era muito conhecido por aqui?”, e a partir daí deslanchou.
Fui, aos poucos, incluindo as minhas perguntas intercaladamente e assumindo meu papel ativo. Estava ali como jornalista, mas, acima de tudo, também como aluna. E é este o papel que não podemos, jamais, subestimar. Que todas as pessoas merecem respeito, é algo óbvio [só com gentil destreza se ganha gentileza]; a questão é que a abordagem respeitosa deverá ser diferenciada para cada caso, os limites éticos dependem de um estudo gradual das dores e flores do momento; e esta foi a lição principal que levei.
Como você gostaria que agissem com você se fosse o entrevistado? Basta inverter os papéis e ser cauteloso. Naquele momento, parei para ouvir e aprender ao máximo antes de acumular as minhas próprias ações. Tailane, com cada ato, engrandeceu as minhas bagagens. Mas não deixei de, após, cometer alguns questionamentos. Saber ouvir também não é sinônimo de calar posturas.
Caso informações não fossem caçadas sem que alguém decretasse, talvez a tal saída nunca tivesse ocorrido. Caso a experiência não acontecesse, não teria tido metade das reflexões de suma importância que alcancei naquele curto, tenso e basilar período.
As dicas para os novos e futuros jornalistas, portanto, são: participe de grupos de trocas de informações [“Ah, mas não conheço nenhum”, então que tal criar?], busque novas maneiras para que, independente de onde estiver, possa ler mais do mundo e das pessoas. Dê seus pulos sem que precisem colocar a cama elástica nas suas solas – só não pule em cima dos outros. O livro fica muito mais interessante de ser relido quando colocamos post-its nele e, principalmente, quando deixamos aquela opinião tão divergente, multiplicar as nossas de alguma forma.
Pilares. Prestar atenção, saber calar enquanto o outro está concluindo ideias e, por outro lado, não ter receio de levantar o dedo onde não foi chamado. Nesta linha tênue, é tudo questão de respeito, de inverter os papéis. Olhos atentos funcionam melhor quando a boca e o ouvido fazem dança nos divãs. Não existe ócio para um bom jornalista. Ele é apenas uma abertura para outra nova revelação. Afinal, se você está encurralado, não tentou mudar a sua forma de tentar.
*O nome Gustavo é fictício, apesar dos fatos reais.