O voto dos encarcerados

O voto dos encarcerados

Foto: Ascom/Defensoria Pública da Bahia

Foto: Ascom/Defensoria Pública da Bahia

Uma enorme grade de ferro era o único objeto que separava o pátio de um estreito corredor. De um lado, alguns presos jogavam o tradicional baba de domingo enquanto eram observadores por alguns agentes penitenciários. Do outro, mesários aguardavam na seção eleitoral montada pela Defensoria Pública no Presídio de Salvador o momento em que algum dos presos provisórios com direito a voto manifestassem o interesse de ir à urna.

Pouco mais de um minuto já havia passado e naquele tempo não se ouviu por ali o tilintar que do lado de fora do presido muito soou naquele dia. O diretor da unidade apressou-se em explicar que alguns tinham ido votar assim que a seção especial foi aberta, às 8h. Naquele momento, a ausência de um desses eleitores me fez pedi-lo que ajudasse a encontrar algum dos que havia passado pela urna antes da minha chegada.

Caminhamos por uns corredores meio escuros enquanto alguns presos que estavam trancados em celas reclamavam sobre o “direito ao banho de sol” a quem por ali passasse. O barulho do portão fechando foi a única resposta que ouviram. Já do lado de fora, alguns rapazes faziam manutenções em alguns veículos. O diretor chamou pelo nome de um deles, que logo deixou o que estava fazendo e veio ao nosso encontro.

“Bom dia, doutor”, disse o rapaz ao chegar até o local onde estávamos. “Este moço aqui é repórter e quer saber algumas coisas com você sobre as eleições de hoje. Você tem interesse em falar com ele¿”, perguntou o diretor ao jovem. A resposta abriu espaço para que conversássemos por mais quatro minutos, tempo suficiente para que ele me contasse sobre a escolha e a importância daquele momento. “Não enxerguei as mudanças que eu esperava nesses quatro anos. Votei por essa mudança”, justificou, alegando ter analisado todas as propostas apresentadas pelos dois candidatos durante a campanha presidencial. Encerrou a conversa dizendo que “esse é um momento muito importante em minha ressocialização porque me sinto novamente inserido na sociedade”.

Voltando ao prédio, o diretor, ressabiado, explicou o motivo pelo qual o rapaz estava ali. “Está aqui há dois anos e quatro meses. Se envolveu com uma pessoa menor de idade e a família denunciou”, disse ao nos despedirmos. A Poucos metros de distância da ala masculina, no Presídio Feminino a fila para ter acesso à urna era considerável se comparado ao número de presas. Lá, ao contrário do que tinha acontecido na unidade masculina, ouvi o tilintar da urna pelo menos umas três vezes.

Foi depois de ouvir um desses barulhinhos que fui apresentado pela diretora da unidade feminina a uma interna, que falou da sua escolha ao mesmo tempo em que reclamava com a diretora. “Eu até queria falar com a senhora sobre a TV. Estou tendo que pagar para assistir”, reclamou sobre a televisão quebrada. E logo veio a explicação da sua escolha na urna. “Não gosto de política, ia fazer como minha irmã, votar pela cara. Mas vi os debates e votei em quem apresentou proposta para quem está usando uma fardinha dessas aqui”, explicou sua escolha apontando para o uniforme das presidiárias.

Do nosso lado, dois defensores públicos tratavam a todo o momento de explicar o funcionamento daquele sistema. “A Defensoria Pública percebeu que apesar de os direitos políticos dos presos provisórios estarem em vigor, esse direito não estava sendo assegurado. Foi aí que, em 2010, começamos a organizar sistema para que esses direitos políticos fossem assegurados”, explicou um dos defensores.

A última interna com quem falei concordava com o que o defensor dizia. “Não é só porque viemos parar aqui dentro que temos que ficar esquecidas”, contou. “Fui votar e escolhi meu candidato pelas propostas para continuar melhorando a educação”, completou. Despedi-me dela agradecendo pela entrevista. “No meu próximo voto você me entrevistará lá fora”, concluiu enquanto caminhava de volta para a cela.