Ananda Luiza Costa Argolo foi descrita como uma menina alegre e brincalhona por um homem que, por telefone, identificou-se como seu vizinho. Os adjetivos a ela atribuídos não poderiam ser diferentes a uma criança em pleno gozo da sua infância. Seus quatro anos de vida podem dar a dimensão da ingenuidade que ela possuía sobre todas as coisas do mundo. Na contramão do direito exercido por milhões de brasileiros no dia de ontem (5), a Ananda foi retirado o mais importante e fundamental dos direitos: o de viver.
O meu relato é de um dia do qual jamais serei capaz de esquecer no decorrer da minha carreira profissional e enquanto vivo eu for. Ontem foi um dia atípico na rotina de qualquer redação de jornal. As atenções estavam voltadas para aquilo que dizia respeito a eleições, eleitores e eleitos. Mas nem todas as atenções. Ontem também foi um dia atípico para mim. Ananda estava morta e ela era a minha pauta.
Saí da redação me preparando psicologicamente para aquela que seria a minha primeira ida a um necrotério. Na chegada, fui orientado por um repórter mais experiente que, caso fosse necessário abordar algum familiar, a dor e o silêncio deveriam ser respeitados. Naquele momento, a minha vontade também era de permanecer em silêncio, mudo, calado, sem nada a perguntar. Mas perguntei.
O nome de Ananda ainda não estava na lista na qual ninguém jamais deseja um dia constar. Fiquei refém da espera. Também foram longas as horas que fiquei refém das minhas maiores angústias. E foi esperando que vi pessoas chegarem naquele lugar. Algumas já desoladas, algumas com esperanças, mas que se perdiam após breve consulta na lista.
A longa espera serviu para que eu fizesse uma reflexão. Muitas, na verdade. Reflexões sobre a vida, sobre estar vivo e sobre como ser jornalista nessas situações é assustador. Como é estranho ouvir de alguém que “com o tempo acostumamos” a relatar a partida de alguém. É ainda mais estranho presenciar a dor de quem se despede daquele que partiu, tendo como missão registrar aquela dor, mesmo sem conhecer nada ou quase nada a respeito daquele que sofre. Tudo isso me soou invasivo, frio, desumano.
Pouco descobri sobre a menina Ananda naquele lugar. Mas foi naquele lugar – e também por sua causa – que descobri que, no jornalismo, às vezes é preciso ser frio. Não frio com a dor do outro, mas com as nossas próprias angústias. É preciso ser frio com os nossos próprios sentimentos pessoais para permitir que o profissional atue. Sempre terei dificuldade em entender isso… Para Ananda eu dedico essas linhas. E também meu obrigado.