Como o repórter deve se relacionar com a fonte?

Como o repórter deve se relacionar com a fonte?

Entrevista Jornalística

Entrevista Jornalística

Essa é uma pergunta que divide opinião no universo jornalístico. Diversas correntes tratam do assunto, algumas de forma mais radical, pressupondo que o jornalista deve ser comportar de forma absolutamente neutra no trato com a fonte (pessoa que será entrevistada para a matéria). Não demostrar sentimentos e nem cumplicidade com o entrevistado, tratá-lo cordialmente e não obter nada além do necessário para a reportagem. Já outros acreditam que o repórter deve ser cúmplice da fonte, ser um confidente, firmar laços de amizades e trocar favores quando necessário.

Nos manuais de redação há várias instruções para o trato do jornalista como a fonte. Mas, quase todos são consensuais que algumas características devem prevalecer nessa relação, vejamos três:

1º A fonte deve sempre ser informada claramente sobre o objetivo da entrevista, o enfoque da reportagem.

2º A fonte deve ter respeitada a sua posição quanto ao que pode e o que não pode publicado, caso a mesma fale algo e peça para o repórter não colocar na matéria (ação conhecida no meio jornalístico como informação em Off).

3º A fonte é um ser humano que detém uma informação que é importante para a sociedade ou para parte dela, por isso ela deve ter liberdade para falar a informação, o repórter deve informar apenas o que foi dito por ela, não deve acrescentar nem retirar nada. Isso é importante para adquirir a confiança e o respeito da fonte.

No jornalismo o ideal é que o repórter e a fonte tenha uma boa relação, ter boa relação aqui não se entende por amizade, mas não exclui a possibilidade de tê-la. Todas as características citadas acima são no fundo valores éticos para um bom exercício da profissão e bom trato com a informação. Jornalismo é um trabalho social e por isso a confiança é tudo nessa profissão.

A arte de entrevistar

A arte de entrevistar

 

Se a fonte resolveu dar uma entrevista para o repórter é por que ela confia nele e no veículo que ele trabalha. Por isso cabe ao repórter fazer valer a confiança creditada pela fonte. Para isso ele precisa seguir a risca os três requisitos listados acima. É claro, cada caso é um caso. O jornalista precisa ter senso crítico para compreender a intenção da fonte. Que nem sempre é bem intencionada e desinteressada. Tomemos como exemplo o jornalismo político.

O meio politico é muito delicado, o jornalista se relaciona com pessoa que estão com interesse conflitante a todo o momento. Há divergências de projetos políticos nos mais variados seguimentos, desde a visão sobre uma reforma, revisão ou inclusão em uma legislação, até o investimento de determinados valores ou não em uma obra de requalificação, seja de uma rua ou casarão.

Então, já deu para perceber que é um campo minado e que se o repórter não tiver o senso crítico ele é levado pela correnteza e acaba publicando mentiras e difamações. Nesse caso o repórter precisa filtrar as informações, conhecer ou pelo menos tentar entender o porquê de determinadas informações. E para isso ele precisa responder a apenas uma perguntinha: Por que ele está me falando isso? Ou: Por que ele defende isso?

A ideia do jornalista neutro diante da fonte é um mito que já foi quebrado. Não existe neutralidade diante do acontecimento. Esse mito surgiu com o ideário positivista de Augusto Comte, mas foi com o sociólogo alemão Émile Durkheim, que expôs em sua obra a ideia de como o cientista social deveria se comportar diante do experimento a ser analisado, que ele se consolidou. Para Durkheim o cientista não deve se envolver com o fato, deve apenas olhá-lo de longe como alguém que apenas assiste ao redor da ação. Isso não é possível se tratando do ser humano e de sua relação com outros series vivos, seja da espécie animal ou vegetal.

Tomemos como exemplo uma matéria sobre uma chacina em uma comunidade periférica, digo isso pela incidência ser maior em locais assim, não por preconceito. O repórter, ao se deslocar ate o local se depara com uma cena terrível, no chão há corpos, em volta familiares choram, alguns abraçam os corpos perfurados que derramam sangue e clama a Deus ou a qualquer que seja a entidade em busca de uma explicação e até de uma solução para o fato.

Por mais forte que seja a pessoa não tem como não se emocionar com uma cena dessa. O jornalista antes de ser um profissional ele é um ser humano (mesmo que muitos por ai não pareçam ser…).

E não demora muito para ele se colocar no lugar do outro e pensar: Nossa! E se fosse um parente meu ali no chão? Mas, como repórter é seu dever informar a sociedade sobre esse acontecimento, seja para que os culpados sejam punidos ou para que o estado tome uma ação efetiva para coibir que atos como esses continuem acontecendo.

Mas, ao lidar com a cena e após entrevistar os familiares das vítimas ele vai voltar para a redação um pouco mais reflexivo e coberto de compaixão pela dor dos familiares. A dor causa a compaixão, mesmo que a indiferença quanto à dor do outro tenha alcançado níveis alarmantes nas sociedades de hoje. Nesse caso a compaixão já seria o suficiente para quebrar com a teoria do sociólogo alemão.

Então chegamos há algumas conclusões: O repórter deve ter uma relação de respeito e compreensão com a fonte, ele não está acima da fonte e nem vice versa. Ambos ali são dois seres humanos que partilham um desejo em comum que é informar a sociedade ou a um grupo dela sobre algo que é relevante para eles. Seja no campo da arte, música, esporte, politica etc. Ambos necessitam serem francos no diálogo.

Ao repórter cabe perguntar e esclarecer todas as dúvidas. Mesmo às perguntas que pareçam mais óbvias e desnecessárias. Ele deve ter em mente que escreve para uma sociedade heterogênea com pessoa de distintas classes sociais que tiveram mais ou menos acesso a educação. Mas, todas precisarão ler e compreender e esclarecer todas ou a maioria das dúvidas sobre o tema abordado. Cabe à fonte prezar pela verdade ao informar o repórter e ter paciência com ele para esclarecer suas dúvidas e ajudá-lo nos questionamentos.

Enfim, compreendemos que a relação do repórter com a fonte é um elemento básico para uma matéria. Pois sem fonte não há informação e sem informação não há jornalismo.