Por Raul Castro
O Somos surgiu de um misto de desejo e ocasião. Nosso produto online estava inicialmente previsto para ser lançado no dia 20 de novembro e em grupo decidimos que o produto deveria ser de relevância social. Algumas ideias foram sugeridas a turma pelo editor chefe do Correio Oscar Valporto, porém, nenhuma teve aceitação unanime, então, resolvemos pensar por conta própria e escolhemos como tema o dia da Consciência Negra, por dois motivos: Pela data simbólica e pela contradição que o tema gera “O que significa o dia consciência negra para você?”.
Tínhamos em mãos uma missão, tratar o tema de uma forma criativa e original, já que o jornal concorrente preparava um caderno sobre o tema que era constantemente premiado pela qualidade. Após a escolha do tema paramos diante de outra dificuldade, que nome dar ao produto? Sugestões vieram aos montes, de melanina a black power, até que, de repente, Maria (uma das coordenadoras do projeto), rabisca no quadro branco um nome que teria aceitação geral e irrestrita imediatamente: Somos. Por que somos? Porque nós Somos um misto de negro, branco, indígena. É dessa mistura que surgiu o Brasil e a eterna busca e definição do que é ser brasileiro.
Após a escolha do tema e do nome foi à hora de sugerir as matérias. Em busca de ideias para a inovação fomos desafiados pelo jornalista Gustavo Accioly, em reunião, a criarmos sete perfis de personalidades negras com histórias interessantes nas diversas áreas do conhecimento. Aceito o desafio, partimos para prática. Colei com meu parça Vitor Gabriel e fomos a procura de um negro com uma boa histórias e boas histórias sobre os negros. Fomos parar em Pernanbués. E não poderíamos ter ido parar em uma lugar mais característico. Pernanbués foi apontado pelo Índice Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como o bairro mais negro de Salvador. Desafiemo-nos a conhecer o bairro e dele extrair boas histórias. Fomos a primeira vez com apenas uma pergunta na mente: Como é ser negro e viver no bairro mais negro da cidade mais negra fora da África?
Em pesquisa anterior sobre o bairro, encontramos apenas notícias relacionadas à violência e ao tráfico de drogas, ou seja, a mídia só apresentava o lado negativo do bairro, cabia a nós descobrir e mostrar o outro lado, o lado cultural e humano do bairro. E encontramos! Passeamos pelas ruas “nobres” e periféricas do bairro, fomos da principal ao final de linha. Passamos por ruas e vielas. Conversamos com pessoas nas ruas, praças e centros comunitários e sociais. Descobrimos o forte comércio e trânsito intenso do final de linha, passamos pela calmaria e melancolia das ruas antigas próximas as rádios, sentamos para bater um papo e ver o tempo passar no coração do bairro: A Praça Arthur Lago.
Conhecemos pessoas com histórias fantásticas, como dona Luiza, 81, que junto com o marido formou o terno Rosa Menina, tradicional terno de reis do bairro, com mais de 50 anos de atividade. Conhecemos projetos interessantes, a exemplo do Grupo Alerta Pernanbués. Grupo formado por líderes comunitários e moradores do local com o objetivo de levar lazer, esporte e educação para jovens carentes da comunidade.
Perfilado Do Somos
Para o perfil escolhemos contar a história de vida do arte educador Nil Zuannys. Um idealista que resolveu ensinar cultura afro-brasileira através da música. Professor que lutou contra preconceitos e descréditos para tornar o ensino um caminho de mão dupla, despertando dom e o aprendizado em seus alunos.
No fim, descobrirmos um pouco do jornalismo das ruas, que ficou perdido no tempo. Do tempo em que o repórter ia a rua buscar histórias sem nenhum direcionamento prévio. Um Jornalismo feito com pessoas simples do povo que não tinham nada além de suas histórias de vida para contar; histórias de erros e acertos, de derrotas e glorias, de sonhos realizados e outros perdidos ou esquecidos a beira do caminho. Pessoas que não tinha riquezas econômicas nem poder político, sua riqueza é divida com sorrisos e seu poder vem de palavras que nos fazem viajar no tempo e acompanha-los em histórias fantásticas que um dia contaremos e recontaremos a nossos filhos e netos.