Terça-Feira, dia 22 de outubro de 2013.
Hoje, ao chegar à redação fui informado por Linda Bezerra que ficaria na editoria de cidades com um repórter chamado Caique Santos. Caique apertou minha mão e me deu uma notícia que causou em mim um misto de euforia e adrenalina.
– Hoje vamos no Brongo, conhece o Brongo?
Disse que não, mas sabia que não era nenhum bairro nobre…
Linda preencheu o requerimento do transporte e descemos. Antes de descer Caique me deu a primeira dica. Pegou um jornal Correio e falou para eu fazer o mesmo. Ele disse:
– Quando vou a um bairro popular, e sempre que acontece alguma tragédia, costumo levar um jornal para entregar as pessoas após a entrevista. Elas gostam, se familiarizam e se sentem importantes por terem sido entrevistados pelo Jornal que compram.
Ao chegar lá em baixo, Caique procurou um motorista específico. Infelizmente não me lembro de seu nome, mas, me recordo muito bem de sua fisionomia. Era ele um jovem forte e de boa aparência. Usava óculos escuros de estilo esportivo, boné com a aba quebrada, camisa de manga curta e tinha no braço uma tatuagem, que salvo engano, era tribal, dessas bem difundida no século presente.
Lembro-me da conversa do Caique com o motorista:
– E ai cara, vamos para o Brongo, você vai querer ir? Se não quiser não tem problema não, escolho outro. Escolhi você porque gosto do seu trabalho.
Lembro que o motorista parou, pensou um pouco e falou olhando fixamente para Caíque:
Pô, vamos nessa. E ai, carro plotado ou sem plotagem?
Caíque pensou e respondeu:
– Plotado. Acho melhor.
Saímos, lembro de que a segunda dica veio no carro. Caique me disse que é importante o dialogo do repórter com o motorista.
– Cara, você tem que tratar bem e dialogar com o motorista. Jornalismo é um trabalho em equipe, e o motorista é seu parceiro na reportagem.
Recordo-me que antes de chegarmos ao bairro Caíque ligou para a delegacia mais próxima, para saber como estaria a situação. Não me lembro do teor da conversa, estava com olhar perdido pelas ruas, e confesso, não costumo prestar atenção em conversa alheia…
Chegamos à entrada do bairro pela parte de baixo. Vimos que aparentemente estava tudo tranquilo, comércio aberto, pessoas circulando. Bem, isso na entrada…
Chegamos perto de algumas pessoas, mas, ninguém queria falar. Até que de repente passa uma senhora caminhado com uma criança. Ela aparentava estar na casa dos 50, a menino não passava dos sete. Eles seguiam em direção do Brongo e ao parar para observar o logotipo plotado do Correio, recebeu logo o convite de Caique para a entrevista, e sem pensar muito começou a falar. Ela falou que apesar da tragédia a situação no bairro continuava normal, que conhecia os jovens e a mão deles, que não tinha medo de circular pelo bairro. Lembro que quando ia falar mais alguma coisa foi interrompida pela criança que declarou com coragem e uma sinceridade ímpar na voz:
– Eu não tenho medo de andar pelo meu bairro não! Suba para cima e para baixo, brinco de lá e para cá.
Após a interrupção ela falou algumas coisas a mais e foram embora. Logo após, paramos o carro no posto para esperar a viatura que se colocou a nossa disposição para nos acompanhar pelo bairro.
Antes de a viatura chegar, quando o carro estava parado no posto, um homem parou próximo ao carro e ficou encostado em parede. Caique percebeu o indivíduo e comentou com a gente sobre ele. Mas antes de Caíque completar o motorista declarou
– Esse ai não é ladrão não. Deve ser algum Zé.
Alguns minutos depois passa um jovem, aparentando ter uns 22 anos, com um estereótipo muito utilizado por pessoas ligadas ao tráfico, conjunto de roupas da Ciclone – marca surf bem difundida nas periferias – e sandália Kenner. Ele passou com olhar fixo para o carro e para nós que estávamos dentro do carro.
Minutos depois a viatura chega, Caique sai para falar com o policial ao mesmo tempo em que o jovem retorna de seu caminho. Ele se junta ao homem que estava encostado no muro, passam pelo carro, olha para nós e fala:
– Olha o carro das putas ai.
Nesse momento me veio um misto de tensão e medo. Fui interrompido pelo motorista que falou que ele tinha dito isso para a viatura, mas não foi o que pareceu, uma coisa era certa, pelo seu olhar carregado de ódio, parecia que foi para os dois…
Ao Caique entrar no carro o telefone toca. É Linda, que o pressiona para que seja ágil na apuração. Minutos depois entramos no bairro, acompanhados pela viatura. A população nos olhava com um oscilando de surpresa e irá. E isso para mim fez sentido. Na maioria das vezes, a população dos bairros carentes conhece apenas um lado do estado e da mídia, o seu pior lado.
Do estado o lado da repressão, da força policial, que entra para prender e matar os jovens infratores. Não vão a comunidade para dar palestras, informar e conscientizar a população sobre as drogas e a importância do trabalho e educação para resolver os problemas. Já a mídia, que na maioria das vem sempre após algum acidente ou assassinato, é a sensacionalista. Ela explora a dor das vítimas e as misérias que atinge a população. Algumas vezes fazem assistencialismo, mas, claro, depois de explorar bastante a miséria do indivíduo.
Continuamos andamos pelo bairro, vimos crianças brincando de bola e empinando pipa, escolas funcionando e pessoas nos bares. Proprietários de armarinhos e mercadinhos limpando e atendendo as pessoas em seus estabelecimentos.
Alguns olhares de cima do morro repreendiam nos como visitantes indesejáveis. Sobre as entrevistas, não foi possível fazê-las, as pessoas se recusavam a falar. Afinal, as pessoas residem lá, vivem lá. Sabem o que pode e o que não pode falar. E era o momento de não falar. De lá seguimos para o IML, no meio do caminho mais uma vez o telefone, e novamente é Linda, questionando como estava a apuração. Esperamos no IML e nada dos familiares. Resolvemos voltar para a redação, já era quase 17h20 e o tempo estava curto. Dia muito produtivo para mim. Descobri na prática, que o jornalismo policial vive em um equilíbrio constante entre a tensão da redação e das ruas.