Hoje o dia está chato… nenhum corpo, nenhum acidente. O que vou fazer agora? Falar sobre o campo de libra? Ora, bom mesmo seria alguma morte, de preferência uma assim, sei lá, de alguém que deixou a namorada grávida ou só tinha 18 anos…
Segunda-feira é um marasmo só. Além de ser segunda, não tem nada acontecendo de bom. Ah, alguém esfaqueado deu entrada num hospital? Yes, manda alguém pra lá. Opa, acidente na estrada? Com feridos? Agora sim estamos chegando a alguma coisa, apura e escreve logo que eu vou colocar um destaque aqui no site.
Fui mandada pela primeira vez pra rua! Fiquei tão contente! Fui pra lá com um sorriso de orelha a orelha. Eu, estagiária, bancando de repórter, acho que vou ligar pra minha mãe. Ah, sobre o que foi a notícia? É, bem, foi um funeral, mas eu estava tão feliz… Claro, dei meus pêsames e falei com jeitinho, mas puxa, minha primeira vez na rua!
Uma médica atropelou e matou dois jovens? Cola nisso aí, bota 3 repórteres pra cobrir esse assunto. Isso vai dar no que falar, pode apostar. Puxa a história da vida dela, cava alguma coisa, vamos descobrir tudo. Essa vai ser matéria de capa, apura direito, hein?
Olha que lindo, o nome do meu filho saiu pela primeira vez numa matéria! Ah, o que diz nela? Bom, fala de um homem que matou a mulher, mas veja, é o nome de meu filho no jornal, não é lindo? Que orgulho! Vou guardar essa matéria, vou plastificar!
Caricato ou não, Jornalismo acaba tendo seu lado mórbido na profissão. Volta e meia nos flagramos “contentes” por ter acontecido algum acidente na rua. Por quê? Porque é notícia e é disso que o jornalista vive. Mesmo que isso soe mórbido. A verdade é que agradecemos quando nos comovemos com alguma outra notícia, a humanidade nos retorna à alma.