Sobre a mesa, o monitor, o teclado do computador, a caixa de madeira com papéis, um calendário, outro recipiente organizador, dois pequenos equipamentos de som, o jornal e um manual de consulta. “Nova ortografia da língua portuguesa”, de Domício Proença Filho, estampava a capa do livro que continha losangos azuis na diagonal, sobrepostos por um retângulo vertical bege e laranja.
A espessura da obra lembra um dos cinco livros mais famosos do escritor R.R. Martin. Avantajada, entretanto, a publicação não chega perto da figura proeminente que ocupa a cadeira preta e, com os braços mais contraídos que o normal, vez ou outra, se atualiza com os novos verbetes da gramática.
A proeminência é relativa. Aliás, fisicamente, Iran Oliveira Pinheiro, 51, nem deve passar dos 60 quilos. Magro, de barba e cabelos grisalhos, o revisor é assediado pela filha que cursa Nutrição e às vezes precisa de um olhar mais sofisticado no trabalho da faculdade. No CORREIO, a função de evitar que algum equívoco de digitação, sentido, ou estilo seja publicado, é diária.
“Tento ajeitar o texto para ficar da melhor maneira para o leitor”, conta Iran, enquanto conversamos num pequeno vão longe do barulho da conversa de terceiros. Sobre a parede de não mais que um metro de altura – sentamos, descubro a sua formação de Jornalista. “E você não sente vontade de escrever matéria, não?”, pergunto.
Iran reconhece a sua atividade como algo em extinção. Ele diz que havia quatro revisores no jornal, mas há 3 ou 4 anos, foram demitidos. Hoje ele reveza a carga com Socorro. “O volume de trabalho é grande, mas no geral dá para administrar”.
O desafio de Iran é evitar a naturalização da correção, de modo que o ato de ler induza a pensar que isso já é a edição. “Às vezes, o problema do revisor é já ler o certo. Você já lê corrigindo”, revela.
A aptidão para ser revisor vem com o interesse em manter-se informado sobre o que muda na língua portuguesa. Uma boa base oferecida nos anos inicias da escola também faz a diferença. Não há formação para quem ocupa o cargo, mas áreas afins à produção de textos são absolutamente felizes e convenientes a quem atua na revisão de períodos.
Curiosamente, a responsabilidade sobre o texto alheio pesa para o revisor quase do mesmo modo que para um goleiro ao proteger a trave. Ele sabe que defender a bola é sua tarefa. Mas se toma um gol, há severas investiduras. “Quando acerta, ninguém lembra, mas quando acontece alguma coisa, todo mundo cai em cima dele”, compara Iran, que no turno oposto ao do emprego no jornal atende demandas do transporte público de Salvador.