Relatos de uma manifestação

Relatos de uma manifestação

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Na última sexta-feira fui à Flica (Feira Literária Internacional de Cachoeira). Entre os escritores que eu queria ver estavam Fabrício Carpinejar, Laurentino Gomes, Demétrio Magnoli e Luiz Felipe Pondé. Infelizmente não pude acompanhar a mesa dos dois primeiros por chegar em Cachoeira na sexta (eles participaram do evento na quarta e quinta-feira). Fiquei na expectativa em acompanhar Demétrio e Pondé.

Sábado, 26, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli junto a historiadora Maria Hilda Baqueiro Paraíso discutiam assuntos relacionados à cultura indígena na mesa “Donos da Terra? – Os Neoíndios, Velhos Bons Selvagens”.

Cerca de 20 minutos depois de começado a mesa, ouviu-se um grito: “racista!”, alguns segundos depois mais outro brado: “racista!” e, de repente cerca de 20 ou 30 pessoas, em coro, entoavam o canto em protesto ao geógrafo. O curioso é que nesse exato momento o tema discutido não era cotas ou racismo.

A manifestação durou cerca de 1h30, com direto a xingamentos, ofensas e demais agressões verbais em direção a Magnoli. Não pretendo aqui discutir as posições políticas e ideológicas do sociólogo, porém, os manifestantes, em sua maioria estudantes da Universidade Federal do Recôncavo Baiano o acusavam de ser racista e contras as cotas. Os dois lados têm o direito, claro, de terem seus posicionamentos.

A sala do evento estava cheia, o tema debatido era interessante, as pessoas estavam motivadas a participar e surge uma manifestação – legítima, pois todos tem o direito de protestar por qualquer motivo que seja.  O que me deixou chateado foi a exigência dos manifestantes para que Demétrio fosse retirado da mesa (mesmo assim ele continuou sentado por um longo tempo). Perderam todos: o público, que poderia ter assistido uma excelente discussão sobre as questões indígenas; os manifestantes, que não quiseram debater os temas (racismo e cotas raciais) de forma civilizada e democrática e Demétrio que não pode colocar seu ponto de vista sobre as três questões.

Como jornalista, procurei ouvir às partes envolvidas no caso.

 Amanda, estudante da UFRB e militante.

“Sou estudante de Jornalismo, sou cotista, sou preta, sou militante e a gente tá aqui para fazer um ato contra Demétrio Magnoli que é um cara racista, é um cara que é contra as cotas, um cara que quer que preto não entre na universidade, que quer que a universidade continue um lugar protegido, é um cara a favor da limpeza étnico-racial, entendeu? E é um cara que não deveria tá aqui em Cachoeira que é terra de preto. Cachoeira é remanescente de quilombo, é Recôncavo. Então, Demétrio Magnoli não deveria está aqui”. “O posicionamento dele é contrário ás cotas na UnB, Universidade de Brasília. Na Flica só tem branco em maioria hegemônica, a maior parte das mesas é composta por brancos. Não tem negro na Flica. O negro na Flica está como segurança. Só tem preto como segurança e faxineiro. Na Flica não tem negro na mesa falando, só tem branco”.

Jorge Portugal, mediador da mesa.

“Não tenho nada contra manifestação, eu acho que ela tem que ser feita dentro de um determinado limite, quando você quer se manifestar para cassar a palavra do outro, isso vai além dos limites das relações democráticas. Eu vivi num país ditatorial que a gente não podia falar nem se manifestar, então eu sofri. De fato tive a palavra cassada e eu gostaria que na democracia, ou numa suposta democracia, isso não acontecesse. Pessoas que estão aqui vieram para assistir ao debate e estão sendo cerceadas em sua participação”.

Demétrio Magnoli

“Eles fazem isso pra evitar que vozes discordantes de um anti-racista que eu sou falem e se expressem no Brasil. Eles agem como os fascistas na época de Mussolini – invadiam liberdades; elem agem como os que invadiram a peça “Roda Viva” durante a ditadura e espancaram os atores; eles agem pra evitar que as pessoas dialoguem por que eles são incapazes de discutir argumentos; na democracia se ouvem várias vozes, eles são incapazes de ouvir. Se eles estivessem no poder, eles fuzilariam os seus adversários políticos, por sorte nossa, eles não estão no poder; eles são capazes de fazer atos de vandalismo como esse”.

Infelizmente não consegui ouvir a historiadora Maria Hilda Baqueiro Paraíso.

 

Depois do ocorrido, a assessoria da festa literária emitiu uma nota:

“Devido à manifestação que aconteceu durante a 1ª mesa deste sábado, “Donos da Terra? – Os Neoíndios, Velhos Bons Selvagens”, com Demétrio Magnoli e Maria Hilda Baqueiro Paraíso, foi preciso fazer algumas alterações na programação do evento. Foram canceladas a mesa citada e a de 20h, “As Imposições do Amor ao Indivíduo”, com Jean-Claude Kaufmann (França) e Luiz Felipe Pondé. Os organizadores da festa não conseguiriam garantir a integridade física dos autores alvos do protesto, Demétrio Magnoli e Luis Felipe Pondé.