Plantão do fim de semana: para os fortes!

Plantão do fim de semana: para os fortes!

Final de semana é sempre um desafio para quem trabalha na redação do jornal.  Número de gente trabalhando cai o suficiente para você achar que não vai dar conta de fechar um jornal nesses dias de sábado e domingo. Têm editores que já se preocupam em deixar matérias prontas nas suas editorias. Mas o factual, aquilo que acontece na cidade, esse é o verdadeiro desafio.

Fotos do carro onde o guarda municipal foi atingido/ Foto: Taiane Nazaré

Cheguei à redação às 8h da manhã e naquele espaço que mal cabe todos os Futuros* e a equipe permanente durante a semana, no sábado, só tinha as cadeiras e computadores. Salvo duas exceções que já tinham chegado: Priscila Chamas e Graciela Alvarez. Estava sem acreditar que só elas duas iram dar conta de Salvador inteira no começo da manhã, e que eu ficaria na ronda*. Me enganei! Graciela adivinhou a minha vontade de ir pra rua e prontamente me enviou para um cobrir um evento. Até o momento, um evento gratuito com exames de mamografia para mulheres, que mal há? Marina Silva e seu arsenal de objetivas me acompanharam para o Parque da Cidade.

Tudo ia tranquilamente bem, até às 9h30, quando a cidade despertou e começaram a surgir as pautas do 24Horas*. Graciela me ligou dizendo que teria que acabar o que estava fazendo e seguir para o Hospital Roberto Santos, no Cabula. Um guarda municipal morreu na noite anterior e era preciso apurar. Assim, a fotógrafa ficou no parque e eu fui, sem pensar duas vezes, para a emergência onde o guarda tinha dado entrada. Nunca apurei uma morte indo para rua e como só estava sabendo de informações que ouvi por telefone, a atenção em todos os detalhes poderia esclarecer o ocorrido. Li o boletim de ocorrência do posto policial do hospital e já sabia que o próximo passo era o Instituto Médico Legal (IML).

Como disse seu Jair, motorista que me acompanhava: “o lugar da tristeza.” Não tem nada mais que consiga descrever aquele lugar, além de tristeza. Graciela já tinha me preparado, caso eu encontrasse a família do guarda por lá, onde eles teriam que reconhecer o corpo. Se não fosse o motorista do jornal, tinha entrado no instituto pelo mesmo lugar que deixam os corpos para perícia. Me livrei de uma cena desnecessária. Fui respirando fundo para o local certo e, quando entrei na recepção, tinha três famílias que me chamaram atenção: a primeira estava aguardando o corpo ser liberado para enterrar apenas, era uma senhora de idade e que os parentes, conformados, já esperavam pela sua morte. Outra família aguardava o corpo chegar do hospital para o IML. E a terceira, eram pais que não sabiam onde o filho estava. Sim, eles estavam tão desesperados que foram verificar se o filho deles podia estar lá, morto. Ficaram alguns minutos olhando várias fotos de óbitos recém-chegados, tudo para tentar encontrar o filho que não chegou em casa, na noite anterior.  O desespero da mãe me deu uma tontura que tive que sentar alguns minutos e respirar.  Levantei e fui até o balcão saber mais informações e, para meu azar, a família do guarda ainda não tinha chegado.

Como se tratava de um homicídio, o jeito era seguir para a Delegacia de Homicídios (DHPP), no bairro da Pituba. Chegando lá, pelo menos tive a sorte de ter policiais civis com muita disposição para explicar o caso para uma foca*.  Com informações apuradas, tive mais sorte de justamente o carro onde o guarda foi baleado estar na porta do DHPP. E, com riqueza de detalhes um policial me explicou tudo, por onde a bala entrou, qual o calibre dela, como atingiu o guarda e me mostrou até as manchas de sangue que ainda estavam no veículo. Por fim, fiz o máximo de fotos que pude já que estava sozinha e sem fotógrafo. Voltei para a redação. O guarda municipal tinha completado 34 anos, no dia 22 de outubro. Mesmo com a perspectiva do repórter da editoria de cidade, de apurar casos tristes como esse, sinto que quero ir mais para rua, quero ver a cidade acordar.

*Futuros – meu jeito carinhoso de chamar todos os integrantes do programa.

*Ronda – Ligar e apurar direto da redação para todos os órgãos oficiais para saber, trânsito, ocorrências e tudo que acontece no cotidiano da cidade.

*Foca – recém-formado em jornalismo que trabalha na redação de um jornal.