Não costumo me inspirar diretamente nos bons profissionais, e sim, em suas referências. Mas foi diferente na tarde do último dia 25. Era quinta-feira, penúltimo dia da minha segunda semana de imersão na redação do CORREIO, quando tive a felicidade de trocar ideias com um dos melhores repórteres do jornal, conforme seus próprios colegas.
Antes que Linda Bezerra indicasse, como de praxe, o repórter que eu acompanharia naquela tarde pouco movimentada, enchi os peitos de ar, criei coragem, e perguntei: “Ô Linda, e fulano está fazendo o que?”. Um modo tímido de indagar: “Eu poderia, por favor, ficar com fulano esta tarde?”. Ela logo cuidou de me colocar do lado dele e lá fui eu com a cadeira de rodinhas rebaixada, todo cabreiro.
Poucos instantes depois de sentar do seu lado, me situar sobre a pauta que estava sendo apurada, voltamos para perto de Linda. Era para falar sobre a solicitação de fotografias para a tal reportagem que sairá neste fim de semana. “Aí tem o melhor texto do jornal”, avisou um colega logo que sentamos. “Depois de você”, respondeu, na minha frente, enquanto criávamos uma espécie de barricada que impedia as demais pessoas de atravessarem a Redação.
Até que voltássemos à foto que empatava a matéria em andamento, descobri que o pai dele era natural do interior do qual eu venho, Santo Antonio de Jesus. Era como se já nos conhecêssemos. Falamos de abordagens para a reportagem, fontes, mas também de cuscuz, inhame e até de farinha. Desfizemos a “barricada” e voltamos à mesa de trabalho.
Ele precisava mandar algum email, mas aí continuamos a conversar. A Luta, de Norman Mailer, era o livro que ele estava lendo. Este clássico, que eu desconhecia, foi imediatamente para a minha lista de obras para ler antes de morrer. Aproveitei e falei da minha lista enorme de obras em andamento e de que estava para começar uma espécie de biografia de Darwin.
Foi isso que tardou o email que estava para ser enviado. Ele tinha feito uma reportagem sobre Darwin (excelente, por sinal) e aí rendemos a conversa. Mencionou outra reportagem que virou livro, e, inesperadamente, fui presenteado com a tal obra. Era uma biografia do médico Juliano Moreira – referência no campo da psiquiatria no país – que empresta o nome a uma casa de repouso em Salvador, onde nasceu.
Foto: Reprodução. Foto: Edvan Lessa.
“Poxa, eu gosto muito de História da Ciência”, comentei. “Pronto, aí, ó”, respondeu animado sobre a obra que acabara de me dar. Neste meio tempo, pedi que ele assinasse a biografia. Isso depois de já termos conversado sobre prêmios no Jornalismo e chegado à conclusão de que só recentemente passou a adotar a cultura de concorrer a troféus por boas reportagens.
Ele, inclusive, foi indicado ao maior prêmio da categoria no país, o ESSO, e recentemente arrematou o Prêmio de Jornalismo da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), em Brasília. Em uma das reportagens premiadas chegou a utilizar a câmera escondida como recurso de apuração. Fiquei surpreso quando conectou o mini aparelho no computador e vi minha imagem na tela. Eu tinha sido filmado enquanto conversávamos.
Aliás, surpreso foi apelido. Fiquei chocado, hahahahaha. Mas entendi a mensagem que ele quis me passar. Quem me mandou subestimar a camerazinha?, pensei. Conversa vai conversa vem, e o email, finalmente, saiu dos rascunhos. Começamos a trabalhar de verdade. Lá por volta as 15h30, eu acho.
Procurei entrar em contato com as fontes que havia sugerido, por telefone, mas ninguém atendia. Já estava perto das 17h quando ele solicitou um motorista que nos levasse à Faculdade de Arquitetura da UFBA onde tentaríamos localizar uma das pessoas, isto é, o urbanista e arquiteto que pesquisa mobilidade urbana.
A sorte estava a nosso favor, no caso do entrevistado, pois padecemos um pouco para sair da redação por causa do desencontro com o motorista. Enquanto aguardávamos o professor, já na faculdade, outra pessoa me liga e viabiliza a entrevista que precisávamos. Retornamos à redação logo depois. No intervalo até a chegada do motorista novamente, mencionamos a necessidade de um intercâmbio para aprimorar o inglês e projetos de carreira. Ambos pretendemos fazer o mestrado, inclusive.
Bem, eu acho que aquela tarde de trabalho e conversa (ou seria de conversa e trabalho? Rs) ainda não terminou. Por isso não saberia como findar o relato. Hoje de manhã enviei o texto que escrevi a seu pedido – com a entrevista do pesquisador, então, de fato, não acabou ali, no dia 25. Ah, já ia me esquecendo de dizer quem ele é. Mas antes de só mencionar o nome de Alexandre Lyrio*, quero dizer o que aprendi com o jornalista.
É melhor me dedicar a menos coisas e ser excelente, do que tentar fazer um milhão de tarefas e pulverizar a qualidade do que eu fizer, internalizei. Mas talvez o mais importante, é que devo ter autonomia, criticidade (até quando ela aparentemente não é necessária) e nem sempre digerir as coisas como elas são apresentadas. E isto inclui por em questão as próprias condições de trabalho.“Isso é para você ver como o jornal trata as notícias de final de semana.”, sentenciou quando tivemos que pelejar pelo motorista para chegar até onde estava a nossa fonte. “Quero ser assim quado eu crescer”, imaginei algum tempo depois.
*É repórter do jornal CORREIO desde 2005 e gosta muito de jornalismo e História e de jornalismo Esportivo.