A caça*

A caça*

Reprodução

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“Está aberta a temporada de caça à informação. A temporada tem duração de, no máximo, uma hora. Ora, não me olhe com essa cara, ordens do Online são ordens do Online”, decretou-se.

Foca, um estudante magricela, se encheu de expectativas. Se sentia preparado para a sua primeira caçada. Equipou sua mochila com as armas usuais: bloco de notas do computador, informações prévias, telefone e determinação. Agora, faltava delimitar seu caminho no mapa. “A informação foi vista pela última vez em uma cidade, mas também passou em outras localidades”, pensou. Ele começou por sua própria cidade.

Depois de ligar para hospitais e delegacias das três cidades, Foca notou que as informações não batiam.

– Uma pessoa morreu a caminho do hospital ou foi depois que deram alta? 5 vítimas foram pro hospital de lá ou daqui? Eram 5 ou 4? – Foca sentia o suor lhe correr pelas mãos. Digitava números no telefone furiosamente e sentia um princípio de síncope quando errava a senha que libera uma ligação. Como poderia seguir as pistas, se elas levavam para tantos caminhos? E como podia manter a calma tendo que redigitar todos os infinitos números da senha toda vez que errava?
O tempo passava, Foca se esforçava e as fontes falavam mais coisas divergentes.

– Foi o filho da tia da cunhada ou o pastor da igreja da prima?

– Não, nada disso. Eu tive a informação de que foi o irmão da sogra. – responde a fonte.

– E de onde veio essa informação? – insiste Foca.

– Ah, aí já não era no meu turno. Eu só fiquei sabendo.

Respirando fundo, Foca se concentrou mais. Cruzou todas as informações e ligou para jornais locais, onde a possível caça se encontrava. Bingo! Outra participante da temporada estava caçando a mesma informação. Estando mais adiantada, ela se dispôs a ajudar o pobre estudante.

Vendo que as pistas começavam a se entrelaçar, Foca partiu para o bote. Estalou os dedos e se pôs a escrever todo o ocorrido, parando às vezes para checar mais algumas informações. O tempo estava se esgotando, mas ele escrevia febrilmente.

O tiro foi certeiro. Ponto final. Hora de levar a caça até os revisores da temporada para darem uma olhada. Avaliam aqui, cutucam ali, mexem um pouco lá. “Tudo certo, pode publicar, Foca”.

Foi assim que Foca participou de sua primeira temporada de caça. A primeira de muitas por vir. Ele não se queixou, achou ótimo e, com certeza, não deixará passar nenhum prazo de inscrição das próximas temporadas.
*História baseada no dia de quarta-feira da imersão no correio24horas