“Foi Tatu quem fez”

“Foi Tatu quem fez”

Morgana Miranda: Foto Maria Ísis

Morgana Miranda: Foto Maria Ísis

Cabelo e lábios avermelhados, óculos espelhado, colar em formato de pássaro, blusa de frio estampada com miniaturas de robôs, calça jeans azul escura, sapatilha preta e branca e um sorriso radiante no rosto. Acha que falo de alguma atriz famosa, não é? Bem, ela até que tem um pouco de atriz, mas não é famosa não. Essa é Morgana Miranda, diagramadora e capista do jornal CORREIO. Você deve estar se perguntando: mas que diabos é uma capista? Ela é simplesmente uma das pessoas responsáveis por fazer  você levar o jornal para casa. Ela é quem dita as regras da organização visual da capa do CORREIO nosso de cada dia. Ela quem escolhe onde e como as fotos, textos e marca devem ficar. Tudo isso para chamar a sua atenção para o jornal e, sabendo do seu gosto apurado, ela tem uma aliada determinante para isso: a sua capacidade de inovação. Inovação que não define só o seu jeito de vestir, mas também o seu jeito de ser.

Com um extraordinário senso de humor, Morgana explicou para os jovens aprendizes do jornalismo o que é e qual a importância de uma identidade visual para um veículo: “Um exemplo: Quando a pessoa está andando na rua e ela vê no chão um pedaço de jornal rasgado com a cor e a fonte presente no jornal ela logo identifica quê é uma parte do CORREIO, mesmo que ela não tenha visto o nome ou símbolo. Isso acontece por que o CORREIO já criou uma identidade visual com seu público. Essa identidade visual é que faz o público identificar imediatamente o jornal ao ver suas características próprias”. Sobre as mudanças gráficas, Miranda destaca a importância de serem claras e facilmente percebidas, sobre o risco de uma interpretação errônea do leitor sobre ela: “Quando você for sair do padrão, é indicado que você saia mesmo, porque se você mudar apenas um detalhe não vai parecer que foi uma mudança proposital, e sim um erro”.

Sobre os jornais que até hoje seguem um formato standard tradicional e que buscam seduzir os leitores com um forte apelo factual e uma forma engessada de construção da notícia ela faz um declaração: “Os jornais, principalmente os antigos, precisam entender que eles não são mais as únicas fontes de informações. Eles precisam, mais do que nunca, mostrar o que as pessoas não sabem e isso de uma forma diferente. Aqui no CORREIO a gente tenta fugir desse padrão chato. As pessoas desejam algo diferente”.

1º Capa de Morgana que concorreu ao Esso

1º Capa de Morgana que concorreu ao Esso

E foi nessa busca de algo diferente que ela viveu sua primeira experiência como capista. Após a saída do capista principal, o chefe de redação, Oscar Valporto, resolveu surpreendê-la com o convite para decidir sobre a capa do dia. Ela, sem experiência nenhuma, com menos de um ano na redação (nunca tinha trabalhado com jornal impresso antes do CORREIO), resolveu aceitar o desafio e com o título “Crime tarja preta” resolveu bolar uma ilustração para a capa. Ela pegou o título foi para sua mesa e minutos depois veio com uma ideia simples, porém interessantíssima: utilizar a ilustração de uma caixa de remédio com uma tarja preta, e ao invés de remédio no recipiente, havia cápsulas de balas, com o número de balas que a vítima foi morta. Essa capa não só conquistou o editor como chamou a atenção de um dos prêmios mais conceituados do jornalismo brasileiro, o prêmio Esso, em quê o jornal concorreu na categoria de melhor capa. Isso é que é começar com o pé direito!

Morgana também colaborou com a capa para a matéria “1000 Vidas”,  premiada internacionalmente e que também foi finalista do prêmio Esso de jornalismo. Nessa matéria ela colocou na capa 1000 pictogramas em formato de pessoas para ilustrar as mil mortes. A capa surpreendente foi bem recebida pelo o público que mandou e-mails elogiando a criatividade da autora que fala orgulhosamente da sua criação: “Eu tive o cuidado de dividir todas as vítimas na ordem das mortes, destacando a cor preta para os homens e vermelho para as mulheres. O resultado foi interessante,  as pessoas pararam para contar os bonequinhos na capa e isso é importante, isso chama a atenção”. Para os jovens estudantes de jornalismo ela deixa um conselho que é imprescindível para que a infografia e o texto trabalhem juntos para uma boa matéria: “É imprescindível que o repórter e o design dialoguem, pois, um texto, por melhor que seja, se não tiver uma boa ilustração não atrai, e vice-versa. É preciso ter um equilíbrio.”

Capa da matéria com mil pictogramas.

Capa da matéria com mil pictogramas.

Ah! E o título é dessa postagem vem de uma historia curiosa. Internamente, quando uma infografia em uma capa não sai como ela e sua equipe esperavam, eles dizem que foi Tatu que fez. Tatu é uma entidade abstrata criada por eles que serve como bode expiratório quando falta tempo ou expiração para algo bem mais elaborado. Afinal é uma das características mais marcante de Morgana a busca pela perfeição, mas, pensando bem, também não é assim conosco, caro leitor? Como já dizia o pensador Alváro Granha: “A perfeição é uma busca que, se encontrada, tudo perderia o sentido”.