(Reprodução/Internet)
Não, esse texto não é sobre jornalismo investigativo. Poderia ser, até porque acho muito interessante quando o jornalista se põe a investigar aquilo que ninguém sabe apenas para poder contar melhor sua história. Como esse blog é espaço para compartilharmos nossas experiências e reflexões a partir do Correio de Futuro, resolvi falar de algo que me fez pensar bastante nos últimos dias de imersão: a investigação cotidiana.
Tudo começou quando, já repetindo as editorias na imersão, eu escolhi passar mais um dia em Minha Bahia (sobre essa escolha já conversamos no texto anterior). Naquele dia, eu iria acompanhar a repórter Julia Vigné na cobertura de uma feira de gestantes. Quando ela me chamou para passar a pauta já disse: eu não entendo nada desse universo. E isso tornou tudo ainda mais interessante. Eu, óbvio, também não entendo nada do universo das futuras mamães e não tinha ideia de como fazer para escrever um bom texto sobre o assunto.
No caminho para o evento Julia foi me mostrando as informações que pescava da internet. De posse da pauta passada pelo chefe de reportagem, sabendo que perguntas o texto deveria responder aos leitores, ela começou o processo de investigação. Antes mesmo de chegarmos até as personagens que construíram nosso texto, eu já tinha aprendido o que era um mijão, um moisés, quantas fraldas por dia e quantas latas de leite por mês um bebê recém-nascido consome. Ainda no carro, Julia investigava para que ela pudesse saber que perguntas fazer para construir seu texto. No fim, duas pessoas que não sabiam nada sobre gravidez conseguiram construir uma boa reportagem (eu acho!).
De volta à redação, ainda antes de finalizar o dia das mamães, alguns de nós futuros fomos convocados para uma missão. A equipe do jornal estava às voltas com a edição de 40 anos do CORREIO, que foi publicada no dia 15. Por isso, precisavam de reforço na equipe para dar conta das edições de rotina que viriam antes da comemoração. Quem seriam os reforços? Nós!
Saímos da imersão de observação para mais uma oportunidade de colocar a mão na massa. O meu desafio era preencher a página de saúde que é publicada no jornal todo domingo. Como se tratava de uma matéria grande, tive o prazer da companhia de dois amigos futuros, Maria Clara e o meu xará Moura. Nossa missão era investigar a informação de que estava faltando Benzetacil nas farmácias de Salvador. Eu, alérgico a penicilina, só conhecia o medicamento pela fama da dor que ele provocava, Por três dias pude não mais observar, mas colocar em prática a tal da investigação cotidiana.
Foram três manhãs intensas. Passeio por farmácias, conversas com pacientes, farmacêuticos, médicos especialistas. No final, um trabalho intenso de pesquisa para entender do que estávamos falando e escrever o texto com todo cuidado do mundo. Essa matéria me rendeu o meu primeiro susto desde que começamos o programa: entendemos uma das instruções de Jorge Gauthier, chefe de reportagem que estava nos orientando, de forma equivocada, e o material final acabou sendo enviado incompleto. Horas depois, já de noite, uma ligação de Jorge para que fizéssemos ajustes para consertar o erro. Primeiro, tivemos a sensação de que havíamos feito tudo errado. Respirei a paz – como muitas vezes já ouvi o próprio Jorge dizer – para perceber que o que precisava ser mudado eram detalhes e a forma de organização do texto. Em menos de uma hora tudo reenviado.
No dia seguinte, ver o texto publicado com ajustes tão pontuais me deu a sensação de dever cumprido. A verdade é que, todo o trabalho de pesquisa que eu batizei de investigação cotidiana, deixa essa sensação ainda mais forte. No final, todo jornalista precisa ser um pouco investigador.