No dia em que eu fui cobrir um enterro e fui agredida, pensei em procurar outro ofício, porque eu achei que não ia aguentar. Não é exagero. Nessa profissão é preciso ter colhão. E eu não sabia se tinha.
Destratar jornalista em enterro é coisa comum, eu sempre soube. Ninguém simpatiza com a aura irremediavelmente urubuzenta que a presença da imprensa em um velório traz.
Eu achava que, munida, como estava, de boas recomendações feitas por repórteres mais experientes e sensíveis, nada podia dar errado.
Mas a mera presença de um jornalista é um açoite. Tem uma coisa que a gente faz sem perceber, que é saudar alegremente os colegas que encontra e conversar alto, se esquecendo totalmente do silêncio e da discrição exigidos em um momento de pesar.
Não encontrei colegas e nem saí perguntando nada de qualquer jeito para ninguém. Sequer olhava muito nos olhos dos mais abalados. Observava, ouvia, deixava à mostra o meu crachá e esperava uma feição receptiva para investir na aproximação, ou até esperava a chegada daqueles com vontade de falar, que sempre aparecem.
Até me emocionei, mas aí é uma deficiência particular: choro em qualquer enterro, casório ou competição olímpica. Em morte porque é tabu; em casamento, porque a noiva sempre chora, aí eu acho lindo e choro junto; em olimpíada, não me pergunte. Acho lindo. Sou coracional, diz um amigo.
Tudo acontecia como previsto: o corpo já tinha descido, o sol se deitava e os presentes se dispersavam. De repente me ligam da redação pedindo uma fala que eu não tinha. Encontrei uma amiga que era chegada à família e pedi que ela me apresentasse a um parente.
A irmã do falecido me chegou abalada, desconexa, mas com uma vontade vigorosa de registrar o que tinha a dizer. Eu anotava tudo. Quando ela começou a falar as partes que eu queria ouvir, uma mão brotou do nada e arrancou de mim o meu caderno.
Dizia: “Você não vai escrever nada! Ela não vai dar entrevista nenhuma! E também quero ver seu celular, você está gravando, que eu sei!”
Era uma mulher que gritava, corria e sacudia o caderno, aí fazia que ia rasgar, e chamava a atenção de todos.
– Meu celular nem câmera tem. Não estou gravando e nem fazendo nada de errado. Devolva o meu caderno – falei.
No fim, uma mulher me salvou: fez um truque pra distrair a outra, bafou meu caderno, me devolveu e saiu caminhando comigo. Pediu desculpas, que eu não ligasse pra isso, e nem achasse que esse era o pensamento e comportamento do resto da família.
Voltei para o carro onde MacGyver estava me esperando. MacGyver é motorista do Correio e uma das pessoas mais divertidas que já conheci. Viajando pela cidade atrás de uma pauta, a gente sempre ri muito, mas dessa vez eu entrei no carro chorando.
– O que aconteceu?
Contei, e ele ficou com pena: disse que ia sair do carro pra dizer pra moça que eu estava trabalhando, que isso não se faz. Ele não foi, claro. Disse, afinal, que essas coisas acontecem, que aos poucos você se acostuma.
Além do mais, era uma situação delicada, e os excessos podem ser perdoados. Minha chateação era nada comparada à dor daquelas pessoas. Quantos sapos engolimos e quantos iremos (e teremos que) engolir?
Sofrer preconceito é duro. Eu não fiz nada de errado e, mesmo assim, me botaram no balaio dos repórteres enxeridos dos veículos de baixo calão. Como se eu tivesse explorando a dor dos outros. Eu não estava.
Por outro lado, quantas profissões exigem que lidemos com tantas histórias diferentes? Jornalismo pode ser muito interessante. É como assistir aos mais importantes episódios da vida dos outros de camarote.
– Foi boa a apuração pelo menos? – MacGyver perguntou.
– Foi legal. Peguei umas coisas legais – respondi, conferindo as folhas do caderno.