O Teatro Vila Velha, que fica cravado no meio do Passeio Público em Salvador, completou, no último dia 31 de julho, 49 anos. Com a marca da nova idade, o Vila Velha passa por uma mudança de gerência com a volta de Ângela Andrade ao Teatro.
A ligação de Ângela com o Vila começou quando ela ainda era adolescente. “Conheci o Vila Velha vindo namorar no Passeio Público”, conta a nova gerente do teatro. Ainda garota, a administradora fazia teatro no Colégio Nossa Senhora das Mercês, onde estudava. Ângela não fazia ideia de que sua história a traria para perto do Vila.

Márcio Meirelles, Sonia Robatto e Ângela Andrade: os três amigos têm em comum a dedicação e o amor pelo Teatro Vila Velha
Nasce o Vila
O Teatro Vila Velha nasceu em 1964, quatro meses depois dos militares transformarem a democracia do país em uma ditadura militar, período que duraria cerca de 20 anos. O momento histórico em que o teatro nasceu não poderia ser mais oportuno.
Voltando cinco anos no tempo, em 1959, sete estudantes da primeira turma da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia que discordavam dos métodos utilizados pelo diretor Martim Gonçalves, resolveram se desligar da escola, faltando apenas três meses para conclusão do curso.
A mais antiga estrela do Vila fazia parte dessa turma: a atriz Sônia Robatto. Com ela e seus colegas, saiu também o professor João Augusto de Azevedo. Juntos, eles fundaram o primeiro grupo de teatro profissional da Bahia, a Companhia Teatro dos Novos. Único membro da companhia ainda vivo, ela costuma ser chamada pelos colegas mais jovens, em tom de homenagem e de brincadeira, de “patrimônio histórico de Salvador”.
Entre 1959 e 1964, a Companhia se apresentava em praças públicas e auditórios de escolas da capital. Sônia conta que, enquanto passeavam pelo passeio público, observaram o terreno que daria espaço para o teatro e chegaram à conclusão.
“Nosso teatro vai ser aqui!”. Ela conta ainda que o local era um antigo zoológico e que foi preciso ir até o governador da época para que ele liberasse o uso do espaço. E assim foi feito. “Fomos ao governador e ele cedeu o espaço para nós”, completa a dama (revolucionária) do teatro baiano. O projeto arquitetônico do primeiro Vila foi do irmão dela, Silvio Robatto, que transformou em realidade o sonho da companhia.

O Vila Velha fica no Passeio Público, logo atrás do Palácio da Aclamação. O espaço foi cedido à Companhia Teatro dos Novos ainda na década de 60 do século passado
Entre a cessão do espaço e a inauguração do teatro, os membros da companhia fizeram campanhas de arrecadação entre amigos e personalidades públicas. O grupo recebeu desde doações de roupas a materiais de construção, sobras de obras públicas. Finalmente, no dia 31 de julho, o teatro Vila Velha foi inaugurado com discurso do então governador Juracy Magalhães.
O currículo do Vila
A maneira como o teatro nasceu dá uma dica de sua marca mais importante: a resistência. O primeiro espetáculo encenado no palco do no Vila foi ‘Eles não usam black-tie’, premiado texto de Gianfrancesco Guarnieri. A história da peça se passa em meio a uma greve de operários e traz ideias sócio-políticas.
Pouco tempo depois de inaugurado o novo espaço, os baianos Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa (quando ainda era conhecida como Maria da Graça) fizeram um espetáculo que ficou marcado na história do teatro, o Nós, Por Exemplo. “Todos eles saíram daqui ainda Bossa Nova”, relata o atual diretor artístico do Teatro Vila Velha, Marcio Meirelles, se referindo aos cantores que marcariam a música popular brasileira com o movimento Tropicalista, com exceção de Maria Bethânia.
O nascimento de um Bando inteiro
Em 1990, quando o Axé Music ainda engatinhava, surgia um dos mais famosos grupos de teatro da Bahia, o Bando de Teatro Olodum. A criação de Márcio Meirelles e Chica Carerlli nasceu como uma forma de manter uma identidade negra no Teatro, como um reforço dessa identidade numa das cidades mais negras do país.
“O Teatro Vila Velha é nossa casa, onde ensaiamos, montamos e apresentamos. É um privilégio para a companhia trabalhar lá”, conta Valdinéia Soriano, que é membro do bando desde o início. O grupo, que tem textos que fortalecem a identidade étnica do negro na Bahia, também está ligado a espírito de resistência que o teatro tem.
Valdinéia conta que um dos momentos mais marcantes da sua trajetória no Teatro foi quando, no meio de uma apresentação do espetáculo Zumbi, uma goteira começou a pingar em cima do palco. “Ela surgiu no meio do espetáculo e nós fugíamos dela o tempo inteiro. Ficávamos atentos e tensos. É uma lembrança forte”, revela a atriz.
Os problemas estruturais do Teatro Vila Velha levaram a uma nova cruzada de resistência. Em 1994, a atual gerente Ângela se uniu a Márcio Meirelles para revitalizar o teatro. A fim de reformar o teatro, foram feitas campanhas de arrecadação. Sônia lembra que os Caetano e Bethânia fizeram shows sem cobrança de cachê, com a bilheteria totalmente revertida para o teatro. “Bethânia disse que só fazia o show se nós (atores) recitássemos, durante o espetáculo, poemas de Fernando Pessoa, escolhidos por ela. Depois mandou uma carta agradecendo a oportunidade”, comentou Sônia, emocionada. “Para mim, foi uma honra”, completa. Com as doações e ações beneficentes, o novo Vila Velha foi aberto à comunidade, em 1998.
Vá ao Vila, Velho
Depois da reforma, que só deixou de pé duas paredes do projeto original, o Vila emcampou uma luta por aumento de público. “Entre as duas paredes, ficou o espírito do teatro”, comenta Márcio. O espírito do teatro e da luta por se manter tem reflexos na campanha “Vá ao Vila, velho!”, que usou nomes conhecidos como Lázaro Ramos, lançado pelo Bando de Teatro Olodum e o tropicalista Tom Zé. Marcio reafirma a importância que o público tem para o Vila. Para ele, o teatro precisa se sustentar com o dinheiro que arrecada de bilheteria, já que nem sempre é possível tocar projetos com apoio ou patrocinadores. “O Bando só conseguiu patrocínio depois do filme”, completa o diretor.
Para ele, o teatro precisa viver de teatro, e não da dependência de editais. Marcio relata que se fosse depender de editais, exclusivamente, muitos projetos, inclusive o atual Espelho para Cegos, que estréia no próximo dia 16 de agosto, nem seriam apresentados. “A gente pega dinheiro de uma bilheteria e investe em outra e assim faz as coisas acontecerem. Não dá pra esperar editais. Os editais passaram do prazo de validade”, conclui, fazendo referência à dependência que se criou dos editais de cultura do governo.
Universidade Livre de Teatro Vila Velha
Para a crise de criação por que passa o teatro atualmente, uma solução foi criar a Universidade Livre de Teatro Vila Velha. Nela, pessoas interessadas em teatro tem aulas e oficinas durante três anos. “Os três anos são suficientes para que o ator saia do curso com um DRT e possa trabalhar no mercado. A academia pode não nos reconhecer, mas não queremos o reconhecimento dela”, explica o diretor.
O curso de formação de atores baseia-se na prática. Os alunos-atores não estão lá, apenas para as aulas. Eles passam por diversos setores do teatro, fazendo com que as tarefas somem 20 horas semanais. A mensalidade para a Universidade Livre é de R$ 200, valor justificado pela necessidade de manutenção do teatro. A prática também passa pelo palco, nos chamados experimentos. “A proposta é que o ator conheça o teatro, que possa se envolver com tudo”, explica o estudante Tiago Querino, aluno da Universidade.

A Peça Espelho para Cegos tem direção de Márcio Meirelles e está em cartaz até o dia 25 de agosto
Espelho para Cegos
A peça Espelho para Cegos, que estreou na última sexta-feira e fica em cartaz por até o dia 25 de agosto, é marcada também por misturar elenco experiente com os novos atores da Universidade Livre. Para a matriarca do Vila, Sonia, essa é uma experiência de troca. “Aprendo muito com eles, é maravilhoso”, revela. O jovem ator Tiago relata adorar escutar as histórias de Sônia. “Ela é uma peça fundamental, que não desiste, nos motiva”, conclui.
E assim, o Vila continua sua trajetória. O palco que se transforma a cada espetáculo (não é um palco italiano, fixo) renova as esperanças e a magia do teatro. A alma do Vila está sempre viva e é isso que não o deixa morrer. “A história do teatro é de doação, desde sempre”, revela, emocionada, Sonia, o patrimônio. E de luta também. Entre iões do Movimento Passe Livre e do Movimento Desocupa ressoam os boatos de que o espírito de João Augusto guarda o teatro. E assim o Vila sobrevive. E que venham os próximos anos.