O foca manifestado

O foca manifestado

Quando eu menos esperava que algo dessa magnitude fosse acontecer, aconteceu. E é estranho, muito estranho. EU sei que eestou presenciando um momento histórico no país, que, com certeza entrará para os livros, mas não ter a mínima noção do alcance dessa importância é muito doido. O Brasil finalmente entrou no calendário de passeatas e manifestações públicas.

Lembro que há dois anos, logo quando entrei na faculdade e tive a grande oportunidade de ouvir sociólogos e antropólogos muito famosos no Brasil, num evento comemorativo de 70 anos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, escutava todos eles falarem o quanto as pessoas estavam lutando por seus direitos nas ruas de países europeus. Eles, que são nossos exemplos de países bem sucedidos (com ressalvas, pelo menos de minha parte) estavam dando exemplo também de que não dá para se acomodar diante da exploração do modo de vida que estamos habituados a ter.

O palco de uma das piores cenas da manifestação do dia 20 de junho amanheceu como se nada tivesse acontecido na tarde anterior

O palco de uma das piores cenas da manifestação do dia 20 de junho amanheceu como se nada tivesse acontecido na tarde anterior

Um protesto que começou pequeno, fazendo barulho irritando o sono tranquilo de governantes preocupados em inaugurar coisas, uma grande massa se ergueu. Mexeram num vespeiro. Foi isso! Mas do vespeiro também surgiu um monte de bicho esquisito. Tem aranha, abelha (essas só fazem barulho), tem formiga (que são esmagadas com uma pisadinha de coturno)e tem escorpião. Esses últimos são os mais violentos, machucam e se machucam, mas não desistem.

E é claro que na era das redes sociais, quem não quer tirar uma fotinha para comprovar que participou da revolução? No Instagram explodiram fotos de pessoas felizes em lutar pelo país. Ouso dizer que algumas delas pareciam de alguma parada festiva. Se tivesse um abadá, ia achar que era carnaval. Legítimo fazer fotos em manifestação, ainda mais, se for uma geração que não viveu isso em momento algum da vida e tem, agora, a oportunidade de soltar o grito engasgado há algum tempo.

Mas o dia não foi de festa para ninguém. Talvez tenha sido apenas para a PM da Bahia, que pôde colocar em prática com um número bem maior de pessoas, o tratamento truculento que costumam dar apenas nas periferias da cidade. Era a chance deles aparecerem como a polícia de São Paulo e Rio de Janeiro apareceram, reprimindo um movimento pacífico.

Ops, mas não foi. Não sabemos ainda se por falta de imagens, se por falta de gente cobrindo, se por desejo de alguém maior que qualquer notícia de não mostrar os horrores do que aconteceu na Cidade da Bahia. O que sabemos é que, enquanto o Jornal Nacional fazia uma edição em tempo real, só com cenas do movimento que tomou conta do país na última semana, a barbárie se instalando no país, o caos tomando conta, inclusive do planalto, Salvador e seus 20 mil manifestantes foram esquecidos pela afiliada local de TV.

E eu? Foca, manifestante, no meio daquilo? Eu fui atrás de um país digno e não vi de perto, mas ouvi de muitos amigos que o inferno era ali, que a polícia não deu tempo para ninguém dizer o que estava fazendo, que as bombas voavam dos helicópteros. Escutava o barulho das explosões, me assustando cada vez que isso acontecia. Cheguei em casa bem antes deles chegarem no Campo Grande, bem longe dos limites impostos pela FIFA. Ocupar aquela região era proibido na noite do dia 20 de junho. Ocupar qualquer região da cidade era.

Como diria uma professora, muito boa, por sinal: jornalistas estão perdidos com essa manifestações por desejarem pautá-la com a cabeça no pensamento moderno. Aliás, a minha humilde opinião de foca é que eles já encontraram nesse pensamento moderno um enquadramento para isso tudo. E a tendência é continuar.