Nesta terça-feira (11), estive pela primeira vez na redação do Correio* pela manhã. Cheguei por volta de 7h10, e na redação estavam apenas Wladmir Lima, na redação do online, Perla Ribeiro, com quem fui falar quando cheguei, o rapaz traz exemplares do jornal e um gato que tem passeado pelo Correio* ultimamente. O clima era completamente diferente de doze horas antes, na segunda, quando saí do jornal que estava sendo fechado mais cedo.
Perla já vinha procurando fatos que rendessem a primeira reportagem do dia, mas a informação veio de Wladmir, que velozmente saiu do aquário para dizer “Perla, atiraram em uma mulher em frente a Faculdade de Medicina do Canela, levaram para o HGE!”. Habemus pauta. Logo em seguida o repórter Caique Santos chegou na redação e logo foi avisado sobre sua apuração daquela manhã. Estávamos juntos nessa.
Ainda na Rua Aristides Novis, onde fica o Correio*, vimos alguns policiais da 41ª CIPM, e como era provável que eles soubessem algo, paramos. De fato sabiam, e foi deles que chegou a informação: “A mulher veio a óbito!”, disse um policial. Seguimos para o Hospital Geral do Estado (até então nunca tinha ido lá), e fomos direto ao posto policial. A história parecia estar mal contada, pois bandidos que estariam fugindo da policia teriam tido a pontaria de acertar, com o carro em movimento, um único tiro na nunca da mulher para desviar o foco da polícia.
Ainda assim, as informações concretas também apareceram: Ana Carla Baldini Soares tinha 45 anos, trabalhava na Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri) e estava indo para um ponto pegar o ônibus que lhe levaria a um dia normal de trabalho. Após obtermos as principais informações, no posto policial, ficamos no aguardo de algum parente. Uma tia chega ainda sem saber da morte da sobrinha, ela foi encaminhada para uma sala e logo ficamos atentos.
Quando tornou-se possível falar com a tia da vitima, uma senhora idosa, Caique pede que eu fique, afinal ela poderia se assustar com muita aproximação. Quando a senhora e outro rapaz que lhe acompanhava saem pela porta principal, com Caique ainda conversando com eles, eu me aproximo um pouco e vejo que eles ainda passavam informações. Convictos, eles diziam que Ana Carla não tinha inimigos. Eles vão embora, com um saco plástico com a bolsa da moça. Visivelmente a ficha ainda não havia caído...
Nossa manhã não terminou ali. Após Caique passar as informações, Perla nos encaminha para o DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa), local onde havia ido há duas semanas para buscar as imagens do assassinato do jornalista morto em um supermercado. Dessa vez fomos para uma apresentação de três presos que confessaram ser responsáveis pela morte de Emanuela Falcão Sarkis.

Enquanto Caique Santos fazia perguntas à delegada, Tayse Argôlo registrava de vários ângulos a cena que já é comum nesse tipo de coletiva.
O crime foi bárbaro, com queimaduras por ácido para que a policia não reconhecesse a vitima. Os detalhes contados pela delegada Clelba Regina Teles Borges de Barros chamavam atenção pela frieza da ação, que teria sido orquestrada por Amanda, “amiga” de Emanuela. Eis o desafio da imprensa: Ouvir os detalhes de um crime assustador e confesso por seus autores, que estão na sua frente, sendo pessoas que também têm direito a defesa. Hora dos jornalistas colocarem em prática as regras da proporcionalidade e do contraditório, aprendidas na faculdade, mantendo o respeito pelos acusados, apesar dos 99,9% de certeza de que ali em sua frente tem um ser deplorável.
Foi uma manhã de contato completo com tudo que me fazia, antes do Jornalismo de Futuro, passar direto por noticias violentas. Creio que agora captei por completo a mensagem que se aproximava desde o começo da vivência na redação, de que o noticiário relacionado à violência é necessário e que a sociedade não podemos fechar os olhos para ele, que reflete o que pode nos atingir a qualquer momento.
O grande aprendizado daquela manhã de terça me mostrou um lado sombrio da humanidade que conhecida, mas não tinha tido contato. Não me refiro apenas a barbaridade dos dois crimes e o modo como eles aconteceram, mas também ao contexto ao redor de tudo aquilo, coisas que as notícias não conseguem transmitir, mas que temos contato durante a apuração, como a troca de olhares perplexos entre os colegas de imprensa a cada detalhe sórdido contado pela delegada ou os muitos doentes amontoados em macas no curto espaço entre a porta de entrada e o posto policial.
Além disso, só agora consegui ver como a imprensa deve agir em apresentações de presos, já que nunca levei em conta o que assistia nos veículos de TV que cobrem essas noticias e geralmente fazem isso de modo grosseiro, que fere os direitos do preso e a ética jornalística. Foi uma manhã de notícias ruins, mas de bons aprendizados, até mesmo no carro com as ótimas dicas de Caique que não poderia deixar de citar aqui. Agora é hora de focar Copa das Confederações que pede passagem!