“Escrever é a arte de cortar palavras”

“Escrever é a arte de cortar palavras”

Sempre fui chegada a textos bons. Por isso, me aproximei do cronista Xico Sá, hoje grande amigo; de Paulo Bono, excelente escritor e blogueiro de Salvador (que acaba de lançar o livro “Espalitando” – imperdível, diga-se de passagem). Até de Nelson Motta eu cheguei perto: com 14 anos e medo de muito pouca coisa, descobri o e-mail dele e mandei perguntas adicionais à leitura do recém lançado “Noites Tropicais”. Muito atencioso, ele respondeu a tudo, sem deixar de dizer que batizou uma filha com meu nome, de perguntar se eu tinha parentesco com Antônio, o mais famoso dos Rizérios (tanto faz Z ou S), e de propagar seu mais novo lançamento na indústria da música: a então desconhecida Vanessa da Mata, “que tem uma voz ótima”, disse ele há mais de dez anos.

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“Escrever é a arte de cortar palavras” – Carlos Drummond de Andrade

Até as paredes das faculdades de jornalismo repetem o mantra da economia nas palavras. Dizer as coisas da forma mais simples, mais clara, com o objetivo de alcançar o menos letrado dos receptores, é a fórmula definitiva para uma reportagem de sucesso. A mais recente descoberta que fiz tem um quê de óbvio: essa regra da simplicidade, que aprendemos na comunicação, serve pra tudo o que é texto. Não existe poema bom com excesso de palavras. Nem conto fantástico que carregue à toa nos adjetivos. As palavras têm uma função, não existem sinônimos perfeitos, e dá pra enriquecer um texto matutando e duvidando de cada pedacinho dele. Cheguei a essas conclusões graças a meu pai, que me ensinou que a gente aprende muito lendo repetidas vezes as coisas de que mais gosta – no meu caso, boas matérias de revista, os textos filosofais de Borges, contos de J. D. Salinger e, mais recentemente, os romances “FUP”, “Atos de Amor” e “Espere a Primavera, Bandini”*. Com minha mamãe aprendi que é preciso ler para se acostumar com as palavras, e também para se inspirar.

Hoje, de tanto praticar, não encontro muita dificuldade em confiar uma produção escrita para outra pessoa corrigir. Tampouco tenho medo de sair excluindo sem pena parágrafos e páginas inteiras, quando entendo que não darão em nada, que de ótimos e geniais não têm provavelmente nada. Aos poucos, veja só, abandonei até o vício de me importar com erros de grafia que vejo por aí. Eles estão mais para deslizes demasiadamente humanos do que falhas homéricas, como muitos gostam de apontar. Erro é erro, coisa que todo mundo comete. Se bobear, vez ou outra vou escrever um “concerteza” ou jeito com “g”. O importante, entendi não tarde demais, é que a mensagem faça sentido, e que, claro, chegue carregada de verdade, suor e alma. Sem essa de que é inaceitável, por exemplo, que um acadêmico cometa erros de português. Acho que a humanidade tem muito mais no que reparar.

*Autores destes livros por ordem de citação: Jim Dodge, Jim Harrison e John Fante