Moderar comentários vai além do aprovar e recusar

Moderar comentários vai além do aprovar e recusar

Um dos dias que mais refleti ao sair do Correio* foi nesta segunda (3), em que minha principal responsabilidade na redação do site foi moderar centenas de comentários feitos pelos leitores. A princípio parecia uma simples tarefa de aprovar ou recusar o que tinha sido comentado diante de critérios previamente estabelecidos, como a reprovação de comentários com palavras de baixo calão, por exemplo. Para quem faz isso diariamente, na correria da redação, possivelmente esse aprovar ou reprovar até seja algo automático, mas para mim foi uma experiência antropológica.

Diariamente abrimos nossa janela para o mundo ao ligar o computador e lemos aquilo que desejamos. Nas redes sociais temos as pessoas de classe social parecida, que frequentam os mesmos locais que a gente, e sempre que alguma publicação inconveniente aparece rapidamente tiramos aquela pessoa de nosso feed de noticias ou até mesmo deletamos ela de nossa lista de amigos.

Mas quando se trata de uma empresa de comunicação com o raro alcance a todas as classes sociais que o Correio* tem, não se pode ignorar o que é dito pelo leitor, mesmo que ali tenha uma bobagem, erros grosseiros de gramática ou críticas ao jornal. Escrevemos para quem vai acessar o site ou comprar o jornal, e se o comentário for cordial, seja o que for, deve ser respeitado e aceito, concordemos ou não.

Mas em alguns casos lidar com a opinião do outro é difícil. Tive a experiência de receber a responsabilidade de moderar os comentários em um dia cheio de observações dos leitores nas noticias publicadas sobre Daniela Mercury, com relação a sua apresentação na Parada Gay em São Paulo, o patrocínio do Governo do Estado e a participação dos filhos dela em um programa de TV. De cara percebi que quem mais comentou nessa notícia foram aqueles que criticavam a artista, o que me leva a refletir sobre o fato de que se as pessoas são contrárias a postura de Daniela Mercury, porque acessam informações sobre ela?

A resposta dessa pergunta fica para outra oportunidade. Voltando aos comentários, eles eram quase infinitos, de pessoas que infelizmente são manipuladas (não encontro outra palavra) por quem vende uma fé equivocada, pautada na intolerância. Particularmente sempre fui cristão e fiquei espantado com coisas escritas que lembravam a inquisição, como “ela vai queimar no inferno” (isso é o que dá pra publicar aqui, foi daí para pior). Independente da postura de Daniela ser certa ou não, o que cabe a opinião de cada um, percebi que as pessoas ligadas às igrejas e que transmitem esse tipo de pensamento, esqueceram o “amai ao próximo como a ti mesmo”. Respeitar a opinião alheia nesse caso foi aprovar comentários que apesar de não ofenderem eram carregados de intolerância, mas temos que ser democráticos e seguir em frente.

Lista com as cinco notícias mais comentadas pelos leitores nas últimas horas.

Outra noticia que rendeu muitos comentários foi “Vitória ‘se confunde’ e publica nota equivocada em site oficial”. Não faltaram comentários de torcedores caçoando do “Vice” e da “Sardinha”, confesso que alguns até me divertiram. Pude observar também alguns torcedores do Vitória, que apesar do erro claro no site do clube, abraçavam a agremiação e com teorias da conspiração diziam que o Correio* era contra seu time. Preservando a diversidade de opiniões, os comentários contrários ao Correio* também são aprovados.

Confesso que alguns comentários também me causavam surpresa, pela ingenuidade, como um sobre a lamentável morte do dançarino Augusto Omolú, onde o leitor dizia algo do tipo ‘esse moço devia ser amigo de todos os jornalistas, todos os sites estão falando dele’. Para esse leitor, a noticia surge apenas quando os afetados são conhecidos dos jornalistas, quando na verdade um fato como esse se impõe diante de tamanha gravidade.

Também vi muitos comentários interessantes de pessoas que acrescentavam informações além das que foram ditas nas reportagens, o que creio que seja o grande barato da internet. Alguns também usavam o espaço como meio de protesto, como numa notícia relacionada a construtora PDG, onde muitos criticaram a empresa.

Esse contato com a opinião das pessoas me fez compreender melhor como é preciso que nosso trabalho, mesmo quando estamos fisicamente na redação, esteja com o pensamento voltado para os leitores. Não é que tenhamos o compromisso de escrever necessariamente  o que eles irão concordar, mas entender que o público leitor vai muito além das pessoas que estão no nosso convívio e que sua voz é sim importante para o nosso trabalho.