“Uma boa experiência ruim”

“Uma boa experiência ruim”

O dia parecia o de um feriado comum, a manhã estava pra lá de tranquila e ensolarada quando cheguei à Redação do jornal Correio* na quinta-feira (30). Rotina comum, leitura dos jornais locais e acompanhar o que o repórter estava fazendo… mau sabia eu que aqueles seriam meus únicos momentos de paz do dia.

Percebi que Bruno Wendel (repórter) estava checando algo a pedido de Perla (editora) e fiquei atenta, mas em questão de alguns minutos ouvi Linda Bezerra (editora chefe) delegar a ordem: Pede a ‘menina’ para ir, cobrir um acidente entre duas carretas próximo a São Sebastião do Passé Região Metropolitana de Salvador (RMS), que aconteceu na madrugada do feriado de corpus Christi.

Papel e caneta, anotações básicas, nervos a ‘flor da pele’ e rumo à missão do dia. Peguei a autorização para saída com o carro e 90 km, o que é traduzido em 1h e 30 minutos de estrada para chegar ao local. O lugar parecia não chegar nunca e eu cada vez mais ansiosa.

Ninguém para me dizer o que fazer, eu tinha que apurar e fazer algumas fotografias do ocorrido. Estava muito entusiasmada com a experiência que estava por vir, mas não posso negar que no fundo o lado humano se entristecia por estar frente a uma experiência negativa.

No caminho muitos pensamentos e poucas palavras trocadas com o motorista e finalmente chegamos ao km- 371, lugarejo de Rio Una, próximo a Catu. Desci do carro e com certa agilidade fui em direção às carretas queimadas, uma cena para ficar na memória!

Fiz algumas fotos com mãos trêmulas e de frente para aquele cenário pensei: Estou aqui para fazer o meu trabalho, ou faço e ponto, ou desisto de tudo nesse momento! Nessa hora foi como se outro lado meu tomasse a ‘rédea’ da situação e me direcionasse. Ergui a cabeça, invadi o local e fiz o que precisava ser feito. Acompanhei a remoção do corpo do motorista  de 35 anos que morreu carbonizado e teve o corpo reduzido ao tórax, conversei com um comandante da Polícia rodoviária federal (PRF) de Catu e com alguns moradores da região que relataram tudo que tinham visto com certa emoção.

No acidente um dos motoristas, o da carreta de cerveja, sobreviveu e eu fui investigar mais, lembrando que Linda Bezerra falara antes de eu sair da redação: Um bom jornalista tem que saber apurar! Lembre-se que você vai contar uma história e precisa de informações. Enfatizou.

Consegui localizar o hospital para onde o sobrevivente foi levado e fui em busca de mais informações que pudessem me ajudar. Depois fui a delegacia de polícia civil de Catu e também consegui encontrar uma fonte que foi muito útil.

Quando já pensava em retornar para Salvador fui parada por um carro da perícia que disse ter acontecido um homicídio ali próximo, eu “nada curiosa”, como deve ser um jornalista, fui lá e ainda fiz algumas fotos, mas as informações não rendia uma matéria legal, não para o perfil do jornal que eu representava naquele lugar.

De volta para Salvador, mais 1h e 30 minutos de estrada, cansada e com muita fome, triste e satisfeita. Fiquei pensando em quem era aquela pessoa carbonizada? filho? pai? marido? Aff! Em saber que aquela ‘boa experiência ruim’ foi apenas a primeira de muitas que ainda tenho que passar por ossos do ofício.

P.S:. Bem vinda ao clube dos jornalistas, cheguei na Redação antes das 8h e saí às 18h, pois depois de relatar tudo para Perla (editora), ainda fui escrever o aconteciento para o impresso do dia seguinte!

Fotografia- JOICE VIEIRA

Foto acidente Catu