João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão
sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Manuel Bandeira in Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.136)
Com esforço, a gente consegue até enxergar alguma poesia na notícia da morte acidental de um cara que, na hora do descanso, resolve brincar de bola e acaba tragado pelas águas movediças do Dique do Tororó. O poeta Manuel Bandeira, que serviu de álibi na minha associação espúria, explicou no título de onde roubou a história: “Poema tirado de uma notícia de jornal”.
É mais trabalhoso ver poesia no assassinato de um jornalista que aguardava atendimento médico. Sandro Ferreira Santos, 28 anos, morreu porque foi reclamar cerca de R$12 que deixou, por engano, aos caixas de um supermercado. Ele sentiu-se mal após uma discussão com um funcionário. Em seguida, a caminho da ambulância, foi atacado no pescoço por um guardador de carros e morreu.
Eu, o colega Lucas Coutinho e a repórter Luana Ribeiro saímos juntos na segunda-feira por causa do destino interrompido desses dois homens. A morte no Dique tinha acabado de acontecer. Cantarolar João Bosco foi inevitável: “Tá lá o corpo estendido no chão…” Já coberto, sem chororô em volta, o corpo morto de Daniel Ferreira dos Santos, 31 anos, jazia na grama, como provavelmente fez poucos minutos antes, só que com vida.
Já a morte de Sandro aconteceu na sexta-feira (24). Saímos para buscar as imagens do sistema de segurança do supermercado que a DHPP (Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa) tinha acabado de liberar para a imprensa. Pudemos ver a cena tantas vezes descrita ao longo do fim de semana: Sandro sendo levado na cadeira de rodas para o carro da Samu, a chegada do carrasco, o ataque pelas costas e a confusão.
Hoje, quinta-feira (30), dia de Corpus Christ, com exceção do assassinato de um taxista em Feira de Santana, quase não se falou sobre morte. O caminho da portaria da Rede Bahia até a redação do Correio, que geralmente é sapecado de “bom dias”, hoje foi mais vazio: nem todo mundo precisa bater ponto em feriado. Na profissão do jornalista não existe dia santo. Mas também não tem muito rezador. E se o obituário é a parte que nos cabe, que assim seja – amém.