Sempre tem alguma coisa pra quebrar um certo esquema de funcionamento que rege toda redação. Por mais que o jornal se baseie no factual, nas rondas (telefonemas para delegacias, hospitais etc) e nas sugestões de pauta ele encontra uma rotina.
Um dos elementos que quebra a monotonia é o atendente Noel, que trabalha em um dos órgãos para os quais qualquer veículo telefona pelo menos dez vezes por dia.
Noel é galanteador. Passou uma cantada na tímida Miriane, colega do Jornalismo de Futuro, que, perplexa, desligou o telefone para desabafar: “Ele disse que minha voz é dengosa!”
“Disse que meu nome é bonito, diferente”, continuou.
As meninas com mais tempo de redação se viraram para Miriane quase imediatamente. “Ele fala essas coisas para mim também”, disse uma. “Deve ser carente, porque fala essas coisas pra todo mundo”, condenou outra. “Ele até é gentil, mas às vezes esse grude atrapalha o trabalho”, ponderou mais uma.
Não contive a curiosidade de falar com Noel.
A tarefa de fazer a ronda estava sob a responsabilidade de Eduardo Francisco. Pedi a ele para fazer pelo menos a ligação para Noel.
Uma mulher atendeu.
– Alô, aqui é Joana do Correio. Por favor, vocês já têm alguma novidade?
Ela passou para o setor responsável. “Noel vai atender”, pensei. Mas era outra moça. Ela perguntou de novo o que eu queria, e quando fez menção de passar pra outro setor, eu disse logo pra transferir a ligação para Noel. Ele atende:
– Hello mademoiselle.
Me fiz de tímida.
– Boa tarde, Noel, eu gostaria de saber se… (estou dando poucas informações sobre o que Noel, que não se chama Noel, faz para preservar sua identidade)
– Como você se chama, senhorita?
– Joana.
– Jorraaana – enfatizou ele.
A conversa continuou, ele fez outra graça aqui e acolá, desligou falando “thank you very much” (muito obrigado, em inglês), mas não passou tantas cantadas quanto eu esperava. Aí eu emburrei. “Devia ter alguém na sala com ele”, me acalmou uma das meninas.
Amanhã a turma de Jornalismo de Futuro tem palestra, então só vamos voltar à redação na segunda-feira. Já estou bolando uma peça pra pregar em Noel. De repente, posso dizer que me apaixonei por ele e, ao mesmo tempo, dar indícios de que sou uma mulher decrépita e horrorosa, para ver como ele se sai. O que acham?