A lógica do esforço desprezado

A lógica do esforço desprezado

Vou dividir a reflexão sobre um e-mail de Oscar Valporto enviado na sexta-feira (17) para todos os participantes do Jornalismo de Futuro. Eu imagino que à altura da quarta turma ele provavelmente tenha dito isso para todos, mas vale mesmo assim.

Valporto tentou nos preparar para uma nova fase do programa, que, até agora, foi repleto de conversas e de espaço para nossas ideias. Agora é hora da chegada à redação, um desafio divisor de águas – porque quem não assimilar a experiência, com muita dificuldade vai sobreviver na profissão.

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Diferentemente do que aconteceu em quase todos os caminhos trilhados até aqui – elogios contumazes, incentivo e paciência para ler os nem sempre bons textos que produzimos -, o que se vê no ambiente de produção diária de notícias raramente é boa vontade e tempo para se conhecer a genialidade de alguém.

Primeiro porque, como disse Oswald de Andrade, o gênio é uma grande besteira. “Jornal bom é o que chega todo dia cedo”, disse Valporto em outra ocasião. Na redação, geralmente não há tempo a se perder matutando a mais brilhante abertura, ou arrumando as palavras na melhor ordem.

A regra diz que o jornal é, quase por excelência, um local em que se vê muito esforço preterido – que faz doer sobretudo quando se trata da apuração, missão que parece monstruosa para todo iniciante. Sua matéria, seu suor, de repente – basta, por exemplo, alguém ilustre morrer – pode não servir pra mais nada.

Um dia desses eu, mesmo ciente de ter saído com uma pauta fantasma (era um simples teste de apuração), fiz tudo com tanto preciosismo que imaginei que pudesse, afinal, servir pra alguma coisa.

Saí para descobrir o mistério de um supermercado que resolveu vender todo o setor de congelados de última hora e a preço de banana. Camarão, lombo, queijo caro: tudo dentro da validade, mas sem passar de R$3, R$4 reais.

Linda Bezerra, chefe de produção, me ensinou: vá como se fosse uma consumidora e tente descobrir, de conversas com clientes e funcionários, o que aconteceu.

Andei, andei, andei – a certo ponto, levei a recomendação de Linda tão a sério que errei pelos corredores com uma vassoura e um saco de cebolas na mão (fiz questão de escolhê-las, já que meu inconsciente trabalhava com a estranha possibilidade de ser interrogada sobre o que fazia e terminar escorraçada dali).

Por telefone, Linda me avisou que era hora de jogar a máscara no lixo e colher outros depoimentos – dessa vez identificada como repórter. Senti a má vontade que a maioria tem ao falar com a imprensa (pudera: é fácil generalizar diante de tanta má cobertura e distorções de informação).

Quando voltei ao jornal, fui orientada a dar o retorno a Luciana Rebouças, editora de economia. Ela pareceu animada – era mesmo uma boa história e já tínhamos pistas bem escusas sobre o motivo do saldão nos congelados. Só que era uma terça-feira e o fato datava do fim de semana. Uma apuração praticamente natimorta, que com muito esforço renderia uma nota de rodapé.

Mesmo sabendo que se tratava de uma tarefa forjada, foi difícil não me apegar a minha meia página de mal traçadas linhas. Mas sei que difícil mesmo serão as coberturas grandiosas, quando, na volta, o editor disser “corta metade, que apareceu um anúncio”, ou “esquece tudo, porque Fulano morreu e o obituário vai no lugar da sua matéria”.

Difícil, mas não impossível. Esse é o espírito da “fábrica”. E se a gente não gostar, infelizmente, não há muito tempo a ser gasto ouvindo nossas queixas.