Lindo exemplo, mas quem poderá bancar?

Lindo exemplo, mas quem poderá bancar?

Muito bonito o relato da atriz Angelina Jolie! Contar a própria história com o intuito de influenciar a coragem dos outros é um ato de humildade e generosidade. Para quem ainda não sabe, a atriz revelou, hoje, que se submeteu à mastectomia dupla, cirurgia de retirada dos seios. Nesse caso, foi um ato preventivo por conta de sua predisposição genética a desenvolver câncer de mama.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), em 2012 foram cerca de 50 mil novos casos, com 13 mil mortes no Brasil, as mulheres foram as maiores vítimas . Além do fator hereditário, os médicos apontam o sedentarismo, a obesidade e a ingestão excessiva de bebida alcoólica como principais vilões da alta incidência da doença.

Jolie se beneficiou dos avanços da medicina, foi através de um teste genético que descobriu a falha em um gene específico que elevaria a 87% as chances de ser acometida pelo mal. A cirurgia que foi submetida, tem como diferencial seu caráter em preservar a estética. Por esse motivo, ela consegui manter a pele dos seios e os mamilos e, posteriormente, fazer um implante que lhe permite manter a beleza e volume.

Apesar do louvável o exemplo da atriz, toda essa tecnologia diagnóstica está fora do alcance da maioria dos mortais, assim como uma cirurgia de alta precisão. No Brasil, o alto índice de mortalidade é causado pelo diagnóstico tardio da doença. No nosso caso, bela Angelina, temos que esperar chegar aos 40 anos para ter o direito de fazer mamografia gratuitamente. O foco por aqui é descobrir o tumor em estágio inicial, não focar em ações preventivas.

Ano passado houve um aumento de realizações de mamografia no país, conforme dados da Fiocruz. As mulheres de baixa renda continuam sendo as que menos têm acesso aos exames. Caso alguma necessite ser submetida à cirurgia de retirada de um tumor e aos diversos tratamentos de combate ao câncer, terá de enfrentar as filas nos hospitais públicos especializados. Enquanto isso, deve rezar que não falte sangue nem os medicamentos quimioterápicos.  Caso os aceleradores entrem em manutenção, deve providenciar alguma promessa a um santo milagroso.

Como mulher, sinto orgulho da coragem da atriz norte-americana, mas gostaria de lhe contar a nossa realidade. Ela está com os seios novinhos em folha, apenas com pequenas cicatrizes, como a própria disse, em nada abalou sua feminilidade. Seria bom que ela soubesse que tivemos que aguardar o sancionamento da Lei 12.802/2013, para que os hospitais públicos sejam obrigados a fazerem a cirurgia reparadora no ato da mastectomia. Até então o Sistema Único de Saúde (SUS) oferecia o procedimento, mas o tempo de espera era de anos.

Estamos gratas, Angelina Jolie, mas seu exemplo e sensibilidade não valem muito para nós brasileiros. O caminho que você trilhou está muito fora da nossa realidade.