O fim do jornal e o começo de alguma outra coisa

O fim do jornal e o começo de alguma outra coisa

Dizem que somos a turma do jornalismo “de futuro”. Mas quem apresentou, até agora, a coisa mais perto do amanhã foi o jornalista Gustavo Acioli, palestrante de hoje no programa, que mexe com tudo o que envolve tecnologia de novas mídias.

Foi provavelmente a fala mais estimulante para os jovens aprendizes de uma profissão que precisa se reconstruir, mas que teima em fazer tudo à moda antiga. Esse “à moda antiga” compreende o uso que o jornalismo faz da internet, já que, segundo Acioli, praticamente apenas migrou de plataforma: tudo é quase o mesmo – com exceção da economia de papel.

Entre a análise estratégica das principais empresas que mexem com tecnologia (como Apple, Samsung e Google) e a apresentação de novas redes sociais, como Linkedin (que privilegia o perfil profissional) e Pinterest (que atrai gente com pendor pra arte), o que ficou gravado da fala do especialista foi a sensação de que, para insistir no ofício, precisamos mudar em quase todos os sentidos. O principal é entender o conceito da palavra da moda: convergência.

Acioli trouxe um dado previsível, mas impressionante: mais de 50% dos telefones móveis do Brasil já são smartphones – esses aparelhinhos “que juntam um monte de quinquilharia como mouse, teclado, rádio, TV e computador” em uma coisa só, mais prática, mais quente e mais atraente. Isso significa, pra começo de conversa, que os hábitos e as demandas de hoje são outras.

O Facebook, por exemplo, rouba de nós a maior parte do tempo que dedicamos à internet – e se aproveitar dessa fidelidade é algo que toda empresa que se comunica com o público deveria considerar. Nem sempre é fácil acompanhar o câmbio das coisas, mas, para sobreviver, é preciso se mexer: de 1960 pra cá, o ano de 2012 foi o de menor lucro para as empresas midiáticas, segundo gráfico trazido pelo jornalista.

A maioria sabe que os jornalões hoje oscilam entre a morte anunciada e a sempre possível, ainda que remota, chance de descobrir uma fórmula que atenda à precisão de informar com qualidade sem levar à falência. Uma das dicas para descobrir o que precisa mudar é divagar sobre o que desejamos enquanto consumidores. “O jornalismo insiste que a experiência do impresso é incrível, mas não é mais”, disparou Acioli. “Incrível é falar a hora que quiser com amigos do mundo inteiro”.

A publicidade, ramo da comunicação vaidoso e sempre arisco na hora de receber críticas, também foi posta pelo palestrante no páreo dos campos que estão ficando desgastados. As empresas com cifras gigantescas têm velhas e caras manias, como a do anúncio na TV, quando já existe gente ganhando muito mais dinheiro e explorando melhor a marca ao abraçar novidades como o Porta dos Fundos, canal de vídeos de humor do Youtube que registra o maior sucesso da internet brasileira de todos os tempos.

Gay Talese, jornalista da velha guarda que ficou famoso pelas histórias publicadas no The New York Times, falou, na última palestra que fez no Brasil, que os aspirantes a jornalistas de hoje não têm com o que se preocupar. “O jornalismo não vai acabar. Continuem escrevendo. Sempre vai haver gente interessada em boas histórias”.

Acioli, comunicador experiente e que pensa à frente, pareceu duvidar. Pessoalmente, neste ponto eu sou mais Gay Talese. Mas não é por isso que não vou botar, por via das dúvidas, um telefone mais moderno (o meu só liga e manda mensagens) na minha “wishlist”.