O Jornalismo e a relação cordial

O Jornalismo e a relação cordial

 


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Foto: francis-moran.com

Até onde vai o envolvimento do jornalista com os casos que muita das vezes é obrigado a cobrir? Como deve ser a sua relação com as fontes? Com certeza muitos estudantes de jornalismo já devem ter se perguntado sobre isso. A questão veio à tona durante a palestra do editor de cidades, do Correio*, Juan Torres.

O tema inicialmente era jornalismo de dados. Juan trouxe duas matérias para exemplificar o papel das informações numéricas: A primeira surpreendeu ao mostrar que Salvador não está entre as dez cidades mais negras do Brasil. A segunda, na verdade foi uma série em cinco edições, produzida por ele (Juan Torres) e Victor Uchôa, que contabilizou os 1000 homicídios que aconteceram em Salvador e Região Metropolitana em 2011. Esta última fez surgir a reflexão:  Como tratar de um tema tão delicado, sem deixar a emoção passar por cima da razão? Como deixar a emoção transparecer, sem prejudicar o andamento dos trabalhos?

 

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Quem nunca pensou ao ver jornalistas super frios ao relatar casos de natureza um tanto forte, se teria coragem de cobrir casos tão pesados, como a tragédia em Santa Maria ou mostrar de forma banal um corpo baleado estirado no chão? Juan contou então um caso, que um repórter ficou em estado de choque ao presenciar a morte de um vendedor ambulante eletrocutado. Ainda revelou que com o passar do tempo, o jornalista passa a abster fatos que impressionavam meio que por osmose.

Uma vez em uma discussão em sala de aula, questionava-se a atitude de uma jornalista ao entrevistar Ana Carolina Oliveira, a mãe de Isabella Nardoni, – assassinada pelo Pai e pela Madastra em 2008 – ao vê-la aos prantos apenas alisou os seus joelhos, na tentativa de confortá-la. Mas, ficou claro que houve ali uma preocupação em não desandar a condução da matéria, que poderia acontecer se ela também derreter-se solidária ao sentimento da entrevistada.

Outro fato curioso foi ao ver uma palestra com um famoso jornalista de TV, ele comentou que no dia anterior havia ocorrido um fato maravilhoso: a morte de 10 pessoas. Fatos como esse mostram como a profissão de jornalismo pode ser perigosa. Será que com o tempo, nós jornalistas incorporamos tanto o espírito do “the bad news is good news”, que perdemos o sentimento pelo próximo? Claro que não, mas talvez seja essa a impressão que muitos tenham do jornalista.

Essa semana um episódio que exemplifica toda essa questão, aconteceu com a Sandra Annenberg durante o Jornal Hoje, após a exibição de uma matéria que mostrava o drama de uma família que sofria com uma mãe que era usuária de crack. Sandra se emocionou e relatou que ver o contato direto de um familiar com um viciado a chocou muito. A repercussão nas redes sociais foi de alguns por surpresa em ver o lado humano da jornalista. “Mostra que jornalista também tem coração” disse um colega.