Todo estudante de jornalismo aprende que, assim como o que diferencia o humano do macaco é um mero polegar opositor, a melhor notícia se produz do menor envolvimento possível com os fatos.
Mentira. A cultura dos animais, suas cópulas por prazer e seu amor independente da fissura na perpetuação da espécie mostram, cada vez mais, que o elo perdido entre o homem e o bicho só não foi encontrado por falta de sorte ou de estudo de cientistas que, infelizmente, vivem pouco para dar continuidade a pesquisas longas demais.
A notícia, esse poeminha do cotidiano, não só nasce como se desenvolve enquanto a gente assiste a um guri se desvencilhar do braço da mãe para pisar só nas pedras brancas da calçada. Ela aparece quando a gente ouve uma pitangueira gemer ao tentar estacionar o carro no bosque de uma universidade. Dá as caras quando, sem querer, um anônimo sorri um canino de ouro, ou quando conseguimos flagrar a fuga elegante de alguém na mais grosseira das situações.
Só o fato de eu ter enumerado esses e não outros casos mostra como pode ser subjetivo o olhar de um jornalista. Meu repertório é diferente de qualquer outro – às vezes mais sensível, às vezes mais selvagem – e exatamente aí é que mora a impossibilidade de ser parcial ao se contar uma história. Se acontecer de eu ter que falar de Caetano e sou fã dele, meu texto será diferente do texto daquele repórter que teve que aprender a biografia do cantor em parcas laudas, no carro, a caminho da entrevista.
Acho que o jornalista, este profissional tão comumente visto como um pernóstico com arroubos intelectualescos, precisa ficar atento para fazer somente o mesmo exercício do cientista: o de ir a campo para colher dados e apurar fatos, depois voltar, arrendondá-los e exibi-los. Precisa sempre meditar sobre a gravidade do seu ofício, que pode ajudar a trazer saídas para os problemas da sociedade, mas também muita dor de cabeça inútil se não fizer a coisa com honestidade e paciência.
Desconfio que os professores da faculdade não revelem certas coisas por medo de a gente fazer confusão. Eles pedem, sim, que a gente tente se despir do máximo de julgamentos que pudermos ao elaborar uma matéria, mas não contam que é impossível ficar em cima do muro. Estimulam a tentativa, o que já é mais que justo, mas não ensinam, de cabo a rabo, o caminho das pedras. Talvez eles esperem que a gente quebre a cara sozinhos. Não dá pra culpá-los: ainda não inventaram maneira melhor de se aprender as coisas.