Down, down the high society
Quanto antes a gente perceber que jornalismo não é o exercício de um cara que sabe escrever, melhor. E que não é o contato com as assessorias, receber bons presentes de fontes, ou se ver dono de cortesias de shows esgotados e de convites para lançamentos de carros novos em Paris.
Me corrijo: isso tudo faz parte do jornalismo sim, mas é apenas a parte fácil. O duro, como Telma Alvarenga, editora do caderno Vip do Correio, contou, é correr do óbvio.
Telma é escolada na arte de se defender: abriu o discurso apontando o preconceito que todos, principalmente os jornalistas, têm com quem escolhe a coluna social entre tantas outras editorias “mais importantes”.
“Todo mundo gosta de assuntos leves e do mero entretenimento”, provocou, deixando claro que a escolha de falar do que muitas vezes é fútil não a afastou do amor pela intelectualidade e as artes, que cultiva desde muito antes de se formar em jornalismo.
O jornalismo high society de Telma transforma a engessada e mal vista coluna, que sempre foi pautada nos sassaricos da alta sociedade, numa extensão das editorias de cultura e de cidade, procurando trazer notícia de verdade. Que bom, né?
Apresentando o horror em gráficos
Eu não sabia, mas jornalismo é também não fugir do arrebatamento diante da enormidade de uma morte. O repórter deve procurar não se embrutecer depressa com o cotidiano de notícias sangrentas. “Se você conseguir se emocionar toda vez que cobrir um homicídio, ótimo”, aconselhou Juan Torres, editor de cidade do Correio.
Juan nos apresentou à série “1000 Vidas”, reportagem que lavrou ao longo de meses ao lado de Victor Uchôa. O exemplo serviu para mostrar à turma do programa o tesouro escondido nos números do chamado “Jornalismo de Dados”, campo ainda pouco desbravado que busca não o homem que morde o cachorro, mas o cachorro que morde o homem* – em linguagem menos truncada: as repetições nas notícias.
De tanto ver cinco, seis, sete – e às vezes 10, 11, 12 – assassinatos por dia em Salvador e região metropolitana, uma lâmpada se acendeu na cabeça dos repórteres. “A secretaria de segurança pública nos ajudou sem querer”, brincou Juan sobre a decisão da polícia de apresentar as mortes num boletim diário com números brutos, ao invés de relatá-las durante a ronda dos jornalistas, que ligam para saber quem são e em que chão caem os corpos.
Assim, eles foram juntando, dia após dia, por quase seis meses, o número de assassinados que a nossa cidade enterra todos os dias sem derramar uma lágrima. “A gente torceu muito para que o milésimo não fosse um empresário da Pituba, mas um João Ninguém, ignorado por todos, como foram quase todos os outros 999”, disse Juan.
E foi. A reportagem, que esperou pelo tilintar frenético dos números numa planilha do Excel, perfilou afinal um jovem pobre, pardo, tragado pelo tráfico e esquecido pelo sistema. E a matéria cumpriu seu objetivo: o de trazer à tona uma realidade muito cruel, mas que, de tão comum, passa a largo da percepção até dos mais sensíveis.
Leia aqui a matéria de Juan Torres e Victor Uchôa.
*É comum, no jornalismo, ouvir o exemplo do “homem que morde o cachorro” para diferenciar o que é notícia do que não é interessante reportar. Todo dia um cachorro morde alguém: por isso, esse fato dificilmente irá parar nas páginas. Mas se, um dia, um homem morder um cachorro, por ser inusitado, é possível que vire notícia.