Nascimento e Renascimentos

Nascimento e Renascimentos

Foto: reprodução

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Há 22 anos e 24 dias, mais especificamente às 5 da manhã do dia 17 de janeiro de 1997, o sol não era a única coisa que nascia em Salvador. Foi naquela quente sexta feira de verão, numa simples casa no bairro de São Lázaro, que eu abri os olhos pela primeira vez e descobri essa coisa chamada mundo.

Cerca de 20 anos após aquela manhã, curiosamente a apenas poucos metros da casa onde nasci, eu tive outra descoberta: a do que queria para o meu futuro. Foi quando eu era um confuso aluno do segundo semestre de jornalismo, que ainda estava em dúvidas se tinha feito a escolha de curso certa, e, pela primeira vez, iria visitar uma redação de jornal. Fui ao CORREIO para entrevistar Juan Torres e Wladmir Pinheiro para uma reportagem da faculdade.

Eu lembro claramente daquele dia. Uma moça, que hoje sei que se chama Alini, que fica na recepção do jornal, foi me buscar, junto ao colega que fazia dupla comigo, na portaria da Rede Bahia e nos guiou por esse labirinto que são os prédios da empresa. Quando finalmente cheguei na redação, achei aquilo a coisa mais maravilhosa do mundo. Eram apenas mesas, computadores e algumas pessoas que nunca tinha visto na vida, exceto Victor Villarpando, que era meu tirocinante na disciplina de Comunicação Jornalística, mas, mesmo assim, achei aquilo a coisa mais linda do mundo.

Quando fui para uma salinha, que hoje sei que se chama aquário, para conversar com Wladmir e Juan, foi difícil se concentrar na entrevista porque volta e meia me pegava admirando aquela redação, vendo aquelas pessoas que não fazia ideia de quem eram, mas sabia que eram jornalistas fodas (adjetivo baianês para excelentes) e, principalmente, me imaginando sentado em um daqueles computadores trabalhando ao lado daquelas pessoas. E eu, que tinha ido ali apenas para pegar algumas aspas de fontes para colocar na minha reportagem, acabei saindo de lá com duas certezas: de que realmente gostaria de ser jornalista e, o mais importante, de que gostaria de trabalhar no CORREIO.

Entretanto, três semestres após esse dia essa minha certeza estava levemente abalada. Não por eu ter desistido da profissão, mas, sim, por achar que ela tinha desistido de mim. Tivera feito seleção de estágio para o A Tarde, Bahia Notícias, Aratu Online, PETCOM, Agenda Arte e Cultura e o próprio CORREIO, mas sempre recebera resposta negativa ou não obtivera nenhum feedback depois das entrevistas. Acabei entrando na Agenda, mas não por ter passado na entrevista e sim porque um colega, que tinha passado no mesmo processo seletivo que eu concorri, saiu de lá e me indicou.

Minha autoestima estava lá em baixo e eu pensava que nunca iria conseguir realizar o meu sonho de ser jornalista. Foi quando vi que as inscrições para o Correio de Futuro estavam abertas. Me inscrevi só “por fazer” mesmo. Tinha praticamente 0 de esperança de ser aprovado. E essa confiança ficou mais negativa ainda quando cheguei no dia da primeira etapa da seleção e vi uma sala com mais de 100 pessoas e alguns alunos da Facom, como eu, que sabia que eram extremamente talentosos.

Só que, para minha surpresa, alguns dias depois recebi uma ligação do RH da Rede Bahia dizendo que passei na primeira fase. A única coisa que pensava naquele momento é, parafraseando Ronaldinho Gaúcho, “estão deixando a gente sonhar”. Mesmo assim dei uma contida no deslumbramento, pois sabia que a próxima fase seria a mais difícil, pelo menos para mim: a entrevista.

Mas ok, mesmo assim fui e encarei a nova etapa. Fiquei extremamente nervoso na hora pois estavam quatro mulheres na minha frente, entre elas Linda Bezerra, a edita-chefe do jornal, me “bombardeando” com perguntas que iam desde “o jornalista que me inspira” até “qual a minha relação com meus familiares”, passando por uma análise do panorama político brasileiro.

Eu não sei o que falei lá que fez com que elas gostassem de mim, só sei que, para minha surpresa, fui aprovado. Estava tão feliz que nem sabia como reagir, era o primeiro “sim” que tinha recebido na vida, e justamente do lugar onde, desde aquele dia que visitara o CORREIO há um ano e meio atrás, tinha como sonho trabalhar. Estava tão feliz que, mesmo sendo ateu, até a Deus eu agradeci e disse “rapaz, depois de tantos nãos acabei recebendo o sim que mais gostaria. Não é mesmo verdade isso que o povo diz, que você escreve certo por linhas tortas?” Mas logo depois recuperei a minha razão e voltei para o meu tão querido ceticismo.

Hoje já fazem dois meses e meio deste dia tão feliz. Faltam apenas duas semanas antes do fim do Correio de Futuro e é contando essa historinha que gostaria de me despedir do projeto. Vocês talvez não tenham noção, mas, ironicamente, a poucos metros do lugar onde nasci, eu “renasci” profissionalmente duas vezes.

Não sei se vou ser efetivado aqui como estagiário (o que seria, talvez, uma felicidade ainda maior que a daquele dia que eu recebera a notícia que fui aprovado no projeto), mas, mesmo assim, gostaria de dizer que valeu a pena cada segundo dos três meses que passei aqui no jornal. Termino o Correio de Futuro com a certeza de que me tornei um jornalista e, principalmente, uma pessoa melhor.

Lembro de que na entrevista quando alguém, acho que Bárbara (professora orientadora do Correio de Futuro), perguntou quais eram os meus defeitos, um dos que citei foi justamente a insegurança, e hoje me sinto uma pessoa muito mais segura e confiante. Até meu problema de dicção eu sinto que melhorei.

Por fim, todos os dias durante esses meses que passei aqui, sempre que eu entrei pela porta do jornal senti o mesmo deslumbre que aquele quase calouro de jornalismo vivenciou ao vir entrevistar Wlad (tô cheio de intimidade já) e Juan. E, por fim, gostaria de agradecer ao CORREIO por, pela segunda vez, ter me dado certeza de que, por muito tempo espero, o mundo terá um jornalista chamado Gabriel Moura que irá destilar piadas ruins e trocadilhos mal feitos nas redações do mundo afora.